sexta-feira, 14 de novembro de 2014

EU NÃO TENHO CERTEZA se já contei este "causo" sobre um colega de "república" em Salvador...Não sei se foi no blog do Cacau ou foi aqui mesmo...Bem, acho que vale a pena contar de novo, mesmo porque não tenho tempo para pesquisar arquivos publicados.
Quando  saí do banco em que eu trabalhava, fiquei um tempinho na fábrica de papelão Tororó e, logo depois, fui trabalhar na Pedreira Valéria, uma empresa do grupo Odebrecht que distava uns quatorze quilômetros de Salvador. Tive, portanto, de arrumar hospedagem. Conseguí numa "república" que ficava no Barbalho. Foi lá que eu conheci vários tipos interessantes, e, dentre esses, um cara chamado Milton, meu companheiro de quarto. Aliás, dividíamos o mesmo beliche eu na parte de cima e dormindo de "valete". Preferia o odor do chulé do que escutar no pé do ouvido o ronco misto com bafo azedo de cachaça.
 Milton, quando usava o desodorante o quarto ficava irrespirável tal o exagero com que ele o aplicava nas axilas. Certa feita falei sobre o exagero e ele justificou:
- Ora, Britão, este desodorante é muito volátil !
Daí pra frente, como eu espalhei pra galera a justificativa, ele passou a ser chamado por todos de MILTON VOLÁTIL !
Uma certa segunda-feira, eu havia retornado da minha cidade, Cachoeira, saltei na Pedreira Valéria pra trabalhar. Não tive sossego, fui e voltei de Salvador umas quatro vezes a fim de atender a demanda dos vários setores que dependiam do setor de compras. Estava, portanto, "boiado", cansadíssimo quando fui pra "república". Batí na cama e dormi. Acordei com um alarido dentro do quarto, era José, carteiro, filho mais velho da dona do pensionato, falando grosso com Milton Volátil:
- Milton, tô aporrinhado contigo! Logo você que é nosso conterrâneo, conhece mamãe e minhas irmãs, é o primeiro a querer esculhambar o pensionato, a desobedecer as ordens da mamãe!
E ele:
- Você tá dano ouvido a fofocas, Zé ?!
- Não é fofoca não! Você sabe muito bem que tem uma norma estabelecida por mamãe que é pra não se trazer estranhos pra aqui, muito menos trazer bebidas.
E Milton rebateu:
- Peraí, Zé, aí tá de mais...
E José retrucou:
- E você não só trouxe um estranho como beberam cerveja aqui no quarto..
- Que calunia !
- Calúnia coisa nenhuma, seu boca de siri ! Você tá cego? Olha as garrafas ali no canto. O pior é que mamãe veio até aqui reclamar com você e quando foi saindo ouviu você dizer "vá-se pra porra"!
E o nosso Milton Volátil sem poder negar às evidências, na maior cara de pau falou:
- Mas, Zé, porra já tá liberada !
E o filho da dona da "república" irritadíssimo berrou:
- Mas não pra mamãe, entendeu? Não pra mamãe!
Galera, eu não conseguí me segurar; soltei uma descontrolada gargalhada.
Para nós, os homens que morávamos na parte alta da casa termos acesso aos banheiros, era necessário passar por um corredor com uma pequena mureta com cobocós (vide charge) e dava pros fundos de algumas residencias que ficavam na outra rua. 
A galera gostava de ficar abaixada por trás dos cobogós bisbilhotando tudo, sobretudo quando se descobriu em uma das casas uma morena que gostava de desfilar de calcinha e peitinhos de fora. Era casada, de quinze em quinze dias o marido aparecia e a turma descobriu que ele era embarcado, ou seja, trabalhava numa plataforma da Petrobras.
Nos quinze dias em que o "inocente" esta embarcado, aportava na casa dele um sujeito gordo, barrigudo, e que segundo foi apurado era médico.
A moça realmente era fogosa e provocante, não se inibia com a presença do médico, sentava no colo dele, corria e ele atrás e a gente assistindo as "preliminares" porque eles iam pro quarto. 
Por vezes se formavam filas para assistir ao espetáculo. Chamei a atenção de todos porque, com o Horário de Verão, seis horas da tarde o sol estava alto, ainda, e de nada adiantava ficar escondido atrás do cobogó. 
Mais uma vez, quando retornei numa segunda-feira, o assunto era o esperado por mim. E alguém me avisou:
- Brito meu véi, você só falta acertar a loteria federal...
Sem vacilo eu deduzi:
- Foi o Milton Volátil!
E ele chegou depois de ansiosamente esperado por mim. Queria saber como é que foi:
- E aí, Volátil, você foi pego no flagra, não foi?
E ele, surpresa:
- Já te passaram o "bisun"?  Eu estava numa nice e o tal do médico veio até o pátio da casa esculhambando comigo: "Você não tem vergonha na cara, vagabundo, bisbilhotando a casa dos outros, sabe que você pode responder por crime de invasão de privacidade?"
E eu fiquei ansioso pelo desfecho:
- E aí, Volátil, como é que você se saiu?!
E ele:
- Não tinha outro jeito, Britão; me levantei e falei grosso também pra ele: Descarado é você que aproveita a ausência do corno manso e fica na putaria com essa corneteira vagabunda. Quer tirar onde pra cima de mim? Vá e tome as providências que você quiser médico safado pois eu vou jogar merda no ventilador e vou acabar com a sua vida e a dessa cachorra!
Ih, rapaz ! Depois disso eu não tive mais notícias porque tive de deixar a "república" para trabalhar nas obras de Pedra do Cavalo. O mais provável é que o tal do médico tivesse botado  o galho dentro. Não se sabe se o dele ou o do "sócio".




 

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