sexta-feira, 7 de novembro de 2014

 HISTÓRIA
A visita de Pedro e esposa ao Recôncavo baiano
Há 155 anos passados, no dia 5 de novembro de 1859, um dia de sábado, o Imperador Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga e sua esposa dona Thereza Christina Maria de Bourbon (foto) iniciavam uma viagem ao recôncavo baiano iniciando pela cidade da Cachoeira.
Aristides Augusto Milton em sua preciosa obra intitulada "Efemérides Cachoeirana" , às páginas 356 relata da seguinte forma ao fato em que ele próprio, aos 11 anos de idade foi testemunha ocular: "Pelas seis e meia da tarde, desembarcaram nesta cidade suas majestades imperiais o senhor D.Pedro II e sua augusta consorte dona Thereza Christina Maria".
"Os ilustres visitantes foram recebidos com as mais vivas demostrações de regozijo e respeito"
"Formou toda a Guarda Nacional do município em grande parada. A Câmara municipal incorporada e levando um estandarte à frente, compareceu para entregar ao Imperador as chaves da cidade, cerimônia singular que se realizou num grande barração preparado ao Largo dos Arcos"(atual praça Teixeira de Freitas).
"Em seguida, foi cantado na igreja Matriz, um solene Te Deum a que assistiram tantos os Imperantes como todas as autoridades civis e militares. A tribuna sagrada subiu o frei João do Carmo que, depois, recebeu as honras de Pregador Imperial".
"O povo, curioso e satisfeito, tomou parte ativa e direta em todos os festejos, aclamando frequentemente a Família Imperial". 
E prossegue o doutor Milton em sua narrativa:
""Foi suntuosa a ornamentação das ruas, que por três noites consecutivas estiveram iluminadas a giorno".
"O senhor D.Pedro, durante a sua permanência aqui, visitou as repartições públicas e muitos estabelecimentos particulares. À Santa Casa de Misericórdia, onde esteve no dia 8, sua majestade fez a esmola de 2:000$000".
"No dia 9, pelas duas horas da tarde, os nobilíssimos hóspedes regressaram para a cidade da Bahia a bordo do vapor Pirajá, em que tinham vindo,e foi geral a saudade que essa partida causou".
Que tal, agora, sabermos as impressões do próprio Imperador anotadas em seu "Diário de Viagem ao Norte do Brasil"?  No dia cinco, Sua Majestade anotou que a saída de Salvador se deu após "uma estiada de bastante chuva".
Vamos transcrever o que escreveu D.Pedro II:
"Desembarcamos na cidade da Cachoeira, onde já não nos esperávamos por causa da baixa da maré às seis e meia. Antes vieram a bordo o Juiz Municipal Cerqueira Pinto, que serve de Juiz de Direito depois que o Figueiredo (Antônio Ladislau de Figueiredo Rocha)está em licença, o Juiz Municipal Delegado Trasíbulo da Rocha Passos e o Promotor Pascoal Pereira de Matos. Houve vivas e foguete e fui para uma camarim elegantemente arranjado, onde beijei o Santo Lenho e agradeci as congratulações da Câmara Municipal, dirigidas pelo órgão de seu presidente Francisco Vieira Tosta, irmaõ de Muritiba" (Francisco Vieira Tosta).
"Houve te Deum na matriz, que é um bom templo com o teto pintado e azulejos até meia altura quase das paredes (foto) mas frequentado pelos morcegos, de que vi uns poucos no vão do trono, - assim como em Nazaré -, e sermão em que o pregador Carmelita provocou bravos dos ouvintes e deu vivas".
O Carmelita chamava-se frei João do Carmo, segundo Milton nas "Efemérides".
E o Imperador prossegue em suas impressões:
"A cidade é quase toda calçada pelo modo antigo do Rio de Janeiro, e sua rua principal é a continuidade do cais, pra o qual o Orçamento atual da Província dá cinco contos". "Com São Félix, arraial considerável da margem direita do rio, andará a população por vinte mil almas". "Junto as informações dadas pelo Tosta". "Segundo o Cerqueira Pinto, o último juri foi justo,mas o Promotor reporta esse Tribunal passa-culpa, e houve cinco apelações por parte da Justiça na última sessão". 
E o Imperador, que era homem culto, registrou em seu Diário:
 "O vigário consta-me que é capaz,mas parece que é ignorante, e, no Te Deum leu deseris". "A água é limpa".
O vigário era Frei Pedro de São João Baptista>
No dia seguinte, um dia de domingo, bem cedinho, D.Pedro II saiu da Cachoeira em direção a Feira de Santana subindo "a ladeira do Capoeiraçu, que em tempo de chuva deve tornar-se muito má".
D.Pedro continuou anotando em deu diário demonstrando sua preocupação com a educação infantil: "às nove e meia chegamos a São Gonçalo que tem boa Matriz com duas capelas de grades reentrantes"."A povoação não é muito pequena tendo aula pública de meninos, sendo, 86 matriculados num caderno, e 54 a 55 de frequência!" "O professor parece bom mas insiste pouco na Aritmética e no desenho linear que aliás ensina aos meninos".
O professor citado pelo Imperador é Francisco da Câmara Bittencourt.
E a caravana imperial seguiu viagem até chegarem a "uma grande gameleira, cuja sombra muito agradou com o sol que queimava". Ali  em São Gonçalo foram feitas as mudas dos animais.
E a viagem prosseguia em montarias até que, "a uma légua antes de Feira apareceram as autoridades e um Esquadrão Patriótico com bandeiras e cornetas trajando todos de branco com ramos de folhas e flores formando uma coroa enfiada no braço direito"
"Houve mais entusiasmo na recepção da Feira que na da Cachoeira, talvez por já não me esperavam nesta quando cheguei", observou o Imperador.
E prosseguiu:
Feira de Santana
"A população parece ser de 3 a 4 mil almas". "As ruas não são calçadas". "Há três igrejas, estando a matria por acabar e três praças, não contando o campo da Feira".
D.Pedro em Feira de Santana ficou hospedado na casa de Joaquim Pedreira de Cerqueira que fez uma revelação curiosa ao Imperador:
"Perguntando-lhe eu qual era o gênero de negócio, respondeu-me que era agiota, porque negociava em juros"
Mesmo reconhecendo ser uma atividade normal à época, D.Pedro anotou o seguinte: "parecendo-me, pela cara, sê-lo também na significação ordinária da palavra".
Por volta das 18h. o Imperador se dirigiu para a Igreja a fim de participar do Te Deum, anotando, depois, em seu Diário:
"A igreja é sofrível e o pregador o melhor desde a saída da Bahia, e filho da povoação da Feira".
Sua Majestade estava falando do padre José Cupertino de Araújo.
O Imperador tinha hábitos saudáveis," tendo passado uma noite muito fresca e havido neblina de manhã que só se levantou de todo depois das sete e meia".
Era uma segunda-feira, dia 7 de novembro, quando D.Pedro visitou as Igrejas dos Remédios e capela dos Passos, observando que "o cemitério é bom, mas não conservam os corpos enterrados além de dois anos".
Ao voltar do cemitério, D. Pedro teve uma experiência que jamais deve ter esquecido pois, "ao entrar na casa de uma pobre mulher que diziam conservava o filho, doido furioso, numa casa e acorrentado para não separar-se dela. O doido, logo que pressentiu gente, armado de um pau, ia dando-me com ele, e proferiu palavras indecentes e obscenas. A corrente prendia-se à parede para o lado onde eu estava, mas a mãe afirmou que nunca o pôs numa cova e não se achava agora acorrentado, estando paralítico das pernas. Tem 24 anos de loucura e já era bom carpinteiro quando ela principiou. Verei se vai para o Hospital Pedro II".
Na Feira de Santana o Imperador visitou também a Casa da Câmara, "separada da cadeia e também da audiência e juri", achando-a "muito acanhada".
Ao visitar a feira do gado, anotou: "o melhor era de Serrinha havendo bons bois e sobretudo touros e sendo em geral gordo todo o gado da feira"
"Os cavalos aqui e no resto do Recôncavo que já tenho visto,e mesmo na Bahia, não são tao cômodos como os das margens do rio São Francisco".
Naquela segunda-feira, D.Pedro fazia doação para a criação em Feira do Imperial Asilo de Enfermos D.Pedro II e considerável quantia para os pobres com recomendação expressa para que o padre "atendesse mais largamente, a duas órfãs e uma viúva", cuja situação lhe pareceu de maior carência e compaixão.
De volta à Cachoeira, uma breve passagem por São Gonçalo onde se efetuou nova muda dos animais. Na chegada ao Capoeiruçu, um batalhão aguardava o Imperador e sua esposa que o acompanhara durante toda a viagem.
Terça-feira dia 8, bem cedinho, o Imperador percorreu as ruas da cidade a cavalo acompanhado de grande número de cavaleiros. Visitou demoradamente a Matriz, a capela do Rosário do Coração de Maria, no Rosarinho, as capelas de N.S. do Amparo e da Ajuda, a Ordem Terceira do Carmo, a Câmara, a praça do mercado, a coletoria geral, duas serrarias e o hospital da Santa Casa de Misericórdia (foto do brasão) 
Eram dez e poucos minutos quando D.Pedro visitou São Félix sendo recebido condignamente, sendo presenteado com uma caixa de charutos especiais em rica embalagem de madeira.
Já de volta a Cachoeira, às treze horas, o Imperador com farda de Almirante, embarcou de volta deixando um mil reis para os pobres da Cachoeira em mãos do padre Manoel Teixeira, dois mil reis para a Santa Casa de Misericórdia, - conforme Aristides Milton escreveu nas suas "Efemérides" -, quinhentos reis para os pobres de São Félix e trezentos reis para os da Muritiba.
O casal Imperial apreciava mais detidamente as belezas das margens do rio Paraguaçu, o Engenho Vitória (foto) e a igreja e Seminário do São Francisco do Paraguaçu (foto)


Eram mais ou menos 16h quando a caravana imperial aportou em Maragojipe (foto) no vapor Pirajá. Um cortejo marítimo se formou, banda de música, foguetório e vivas entusiasmados. O casal imperial recebia em Maragojipe grande manifestação de afeto ,respeito e carinho que é uma característica  dos maragojipanos.
Os sinos das igrejas repicavam alegremente enquanto o casal imperial debaixo do pálio, acompanhados das autoridades locais e o povo em geral, se dirigia à igreja matriz.
Discursando na Câmara, segundo noticiou o antigo jornal A Cachoeira, D. Pedro disse o seguinte: "Maragojipe é uma cidade importnte, não é possível ser vista em hora e meia, portanto, está alterado o programa por culpa de quem me iludiu. Durmo aqui!"
Na "Cidade das Palmeiras" conforme batizou o Imperador em uma de suas falas, ele visitou o hospital, onde entregou ao Provedor a quantia de um mil reis, quinhentos reis para as obras de reparo do cemitério e as aulas de "primeiras letras e latim".
Dia 10 de novembro, quinta-feira, o vapor Pirajá deixava Maragojipe bem cedinho, às quatro horas da manhã e a gente vai ficando por aqui com as minhas desculpas por alongar-me tanto. Espero que tenha valido a pena. Bom final de semana para todos.




 
 

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