sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Nós, os baianos, fomos nascidos e criados acreditando em doutrinas católica, evangélica e crenças africanas com seus terreiros e orixás, médiuns, videntes astrólogos,cartomantes, horóscopos...é o propalado sincretismo baiano.
Meus amigos, os vários terreiros de candomblés espalhados na  periferia da cidade sofria a sistemática perseguição da polícia cachoeirana motivada sobretudo pela grande quantidade de denúncias. Delegados e soldadesca invadiam os terreiros, profanavam altares e apreendiam todo o material sagrado. O nosso futuro doutor, professor Luiz Cláudio Dias do Nascimento é a pessoa mais abalizada para pormenorizar o assunto.
Mais forte até que o sentimento religioso à Virgem do Rosário, Ínclita Padroeira da Cachoeira, a cidade era ligadíssima ao sobrenatural. Quando eu era menino um grupo de ciganas perambulavam pelas ruas da cidade "lendo" as mãos dos que achavam possível desvendarem o passado, o presente e até o futuro com a indulgência da polícia tão rigorosa com os cultos africanos.
 Segundo a historiadora Mary del Priore em seu mais recente trabalho intitulado " Do outro lado - A História do sobrenatural e do Espiritismo", um best-seller com mais de duzentos mil livros vendidos, um grupo pequeno de pessoas se reuniam para "falar com o espírito dos mortos" lá pelos anos de 1860.
Ainda de acordo com com a referida autora, em setembro de 1865 formou-se "o primeiro grupo familiar para tratar da doutrina kardecista dirigido pelo professor Luiz Olímpio Teles de Menezes". O referido senhor fundou também um jornal a que deu o nome de "O Eco do Além Túmulo", tendo o cuidado de dizer que a doutrina kardecista "não se imiscuir com Eguns e Orixás, deuses das práticas africanas" já tão difundidas na Bahia.
Desde os idos de 1891, há 123 anos passados, portanto, existia um grupo espírita na Cidade Heróica com o nome de "Sociedade Spirita Cachoeirana" enquanto o "Centro Espírita Obreiros do Bem" foi fundado em 23 de abril de 1931, consagrando neologismos criados pelo codificador Alan Kardec tais como, espiritismo, médium, mediúnico, reencarnação, periespírito etc.
Quando eu era menino,meus pais gostavam de veranear na aprazível cidade serrana de Muritiba, mais precisamente na casa da minha avó Lalu, na Rua do Sertão. Na ocasião, eram comuns os"pregos" de luz, então, galera, com aquela escuridão mal iluminada de candeeiros e fifós, os adultos gostavam de contar histórias de "visagem", caipora, saci-pererê, lobisomem...
Um caso de "visagem" mais constante no papo assustador era de uma alma penada que ficava na bifurcação da estrada nova com a velha, local onde existia uma santa cruz. Ela pedia carona. Contavam que um certo motorista indo de madrugada para "pegar o navio" deu carona a ela que "desapareceu ao cruzar a ponte D.Pedro II !"
Também ouvi contar um caso de um certo doente da Santa Casa que foi atendido por um médico misterioso. Sendo levado o paciente a um salão onde se encontrava uma galeria de retratos de diversos beneméritos da instituição de caridade, ele apontou o dedo para o retrato do médico Alexandre Coelho Bahia (foto) que havia sido prefeito da cidade de 1941 a 42 e havia falecido em 6 de abril de 1948.

Já adulto, soube que um grupo de jovens sem qualquer comprometimento religioso se reunia na "Casa Velha", sobrado situado na praça da Aclamação e que pertenceu à família Motta, que tal grupo fazia contato com o além. Um dos componentes era meu amigo Toinho Cientista, filho de Eduardinho do caminhão. Falei com ele e ele permitiu que eu fosse assistir.
Era uma tarde d domingo que longe vai. O grupo era pequeno, além de Toinho, - dos que ainda lembro -, estava Deralzira, filha de Deraldo relojoeiro.
Achei interessante a coisa e resolvi construir o meu aparelho de comunicação com os mortos. Era um pedaço de Eucatex com um abecedário em forma circular. Constituí um grupo de amigos descompromissados com religião: os bancários do Banco do Brasil Luiz, Hugo Herrera e Hugo Rocha (meu compadre), o meu primo Moacir e meu irmão Rubem como os mais presentes. Outros se juntaram a nós mas,francamente, não me lembro no momento em que estou a escrever.
As reuniões eram feitas na parte baixa do sobrado do meu amigo e compadre Divaldo Sales. Utilizávamos um copo emborcado na placa de Eucatex, dedos suavemente apoiados nele que deslizava suavemente  formando palavras que eu e Hugo, meu compadre, anotávamos para uma compreensão posterior. Eu e Hugo não dávamos qualquer importância se alguém estivesse manipulando mesmo de olhos fechados. O que importava era o conteúdo da mensagem, se faz\ia sentido como no caso de uma mensagem que se dizia ser do doutor Aurelino e do jovem Marcos, amigo de Moacir. Marcos era filho de Raimundo Santana, havia passado no concurso para o Banco do Brasil e sofreu um acidente numa piscina fraturando o crânio.
Depois de algumas reuniões, apareceu a seguinte mensagem:
"Erivaldo...você não deve...mexer...com coisas que não conhece..."  Então, metí a cara na literatura sobretudo porque apareceram na família casos diagnosticados com de "mediunidade" e comecei a frequentar as reuniões na"Casa dos Velhos" dirigida pelo colega bancário Osmundo Araújo.
 A "Casa dos Velhos" eu contribuí de certa forma sendo animador dos matinais de domingo no Cine Glória, ajudando dona Zuzu, esposa de Osmundo (foto em preto e branco à esquerda) a adquirir o imóvel. Aliás,fiz parte da primeira diretoria empossada em 27 de setembro de 1966.
 Estudando a vasta obra de Kardec, em uma das suas publicações ele nos chama a atenção para o fato de que, "a mistificação jamais seria eliminada" na doutrina devido a falhas do ser humano, naturalmente, e, que se deve fazer um estudo minuncioso para saber do que era sério, "evitar-se os  espíritos zombeteiros e levianos,"  sobretudo, os "obsessores" 
Eu mesmo discordava da "água fluidificada" para curar todos os males, o que redundaria no fechamento das farmácias, e de alguns "desencarnados" estrangeiros que não falavam seu idioma natural e sim uma enrolação com um português ridículo.
Aprendí com espíritas de conduta ilibada como Félix de Brito, Egberto Melo, Salustiano Araújo - Salu - (foto à direita,colorida), doutor Pina, dona Odete Lapa, Odete Britto e Zélia Nascimento, dentre outros, a importância da oração, independentemente de pragmatismos doutrinários e filosóficos.
 
 


 
 
 

 

 

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