quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

  Poesias Natalinas   

DOIS POETAS contemporâneos: um maragojipano, OSVALDO SÁ, amigo de saudosa memória (foto acima,colorida) e o outro, cachoeirano,CLÓVIS ALBERTO ALVES MACIEL (foto em preto e branco), meu primo carnal, também falecido. Ambos produziram sonetos maravilhosos.
Osvaldo Sá publicou mais de uma dezena de livros e centenas de artigos publicados em jornais pelo Brasil afora, inclusive em um jornal que se publicava pela Academia Brasileira de Letras. 
No ano de 1973, Osvaldo Sá publicava o seu primeiro livro, "A Conspirata dos Galos", pela Editora Arpoador da capital do estado. E, é desse primeiro livro, dessa antologia de sonetos que extraímos o que segue:
Na Missa do Galo
Bimbalham sinos. Festas no arraial.
De longe chegam bandos de matutos
a saborear cachimbos ou charutos,
nessa alegria ingênua do Natal.

Parece até, no campo, um carnaval,
- Não se vêem cores de pesar e lutos
As caboclinhas fazem cocurutos
e calçam as chinelas muito mal!

Ouvem-se os cavaquinhos e as tiranas;
lendas de Boitatás e da Caipora;
namoros de Pepedos com Joanas.

E, na capela, rezas quase à tôa
enquanto, lá no altar, Nossa Senhora
sorri das tranças de uma tabaroa.

A Cachoeira, terra natal de Clóvis Maciel produziu vários nomes de prestígio e renome nas letras baianas. Ele, infelizmente, até movido pela modéstia teve poucos trabalhos publicados na imprensa local, e, assim, o seu real valor intelectual ficou desconhecido até hoje.
Fui testemunha ocular de vê-lo em plena atividade intelectual. Lia, não gostava e atirava na lata do lixo de onde "salvei" o poema que publiquei no meu primeiro livro, "Oradores e Poetas da Cachoeira" e transcrevo abaixo:
 "É mais fácil entrar um camelo no fundo de uma agulha de que um rico no Reino do Céu!"
Poema de Natal
Cristo, quando na terra te encarnaste,
foi uma estrela a luminosa trompa
que anunciou ao mundo que chegaste,
- Deus, mas tão simples, o Senhor, sem pompa.

Filho de humildes, entre humildes criado,
deste exemplo de amor e singeleza;
não foi teu companheiro o potentado,
mas o anônimo filho da pobreza.

Contra os ricos pregaste, destemido
e em prol dos pobres, ó desassombrado;
para estes foi teu Reino construído,
àqueles o teu Reino foi vedado.

 Contra o orgulho, a ambição, o fausto, o egoísmo
teu Verbo se elevou, desceu tua ira.
A caridade, o amor, o pacifismo,
eis as achas da tua santa pira.

A tua pregação igualitária,
de um só rebanho sob um só pastor,
quer povos sem nababos, mas sem párias,
sem escravos, sem dono, sem senhor.

Mestre te chamam e bem o mereces,
pois aliaste à palavra o grande exemplo,
ensinaste que ao céu não bastam preces,
e limpaste a vergastas o teu templo.

Por isso, ante o teu verbo - sem flagício -,
sacerdotes venais, ricos e nobres,
levaram-te ao supremo sacrifício
para conter a religião dos pobres.

Hoje, porém, transatos dois mil  anos,
nos quais ficou de pé tua doutrina,
o mundo vive os mesmos desenganos
sem aplicar tua santa medicina.

Embora com teu nome batizada,
a nossa pseudo civilização,
de teus ensinamentos não tem nada,
o homem segue a esmagar o seu irmão.

Faz-se mister, portanto, ó Cristo amigo,
que ao mundo tornes - se não ele cai -,
para mostrar, sob o teu doce abrigo
que somos todos filhos de um só Pai !

Eu gostaria de ver outras produções de Clóvis sendo publicadas. O seu nome, post mortem,  o levariam a brilhar entre os escritores e poetas da Bahia. Talvez a sua esposa, Mari, ou algum dos seus filhos tenham guardado alguma coisa. Eu mesmo tenho um acróstico que ele fez a meu pedido. Eu estava apaixonado por uma garota que estudava nas Sacramentinas e quis impressioná-la fazendo versos com o seu nome.,rsrsrs

  

 

  

Um comentário:

  1. Fui colega do Maciel no Banco do Brasil, na década de setenta, em Salvador. Muito inteligente. Tenho dois sonetos deles, em que assinava (se não me falha a memória) como Vasili Molec. Acho que era isso. Excelente pessoa e colega.

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