sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

RELIGIÃO
Os três Pais de Santo
Segundo estudiosos do assunto, a Cachoeira foi, no passado, a cidade baiana de maior presença de lideranças religiosas oriundas da África, com forte presença Iorubá, cujo idioma cantado pelo trio vocal Os Tincoãs (em sua segunda fase) deixou boquiaberto o ministro da cultura de Angola.
Neste nosso artigo vamos nos ater a três dos que conheci; Adálio, Antônio e Renato. Antes, porém, acabei de me lembrar de um fato que aconteceu comigo ainda criança. Na parte térrea do sobrado da filarmônica Lira Ceciliana existia uma quitanda cujo dono era um afro-descendente enorme de gordo mais conhecido por uma alcunha que ele detestava. Tó, filho do professor Salvador, meu amigo e companheiro de traquinagens, me incentivou e eu passei correndo e gritei pra dentro da biboca:
- Cu de touro !!!!
Ele levantou-se em tempo de ver que eu havia entrado no sobrado perto da sua quitanda. Não demorou e eu escutei palmas.Gelei. Deu merda, - pensei -  A minha madrinha, Laura, perguntou:
- Quem é?!
E ele respondeu:
- É de paz!
Imagine se fosse de guerra. Levei uns cocorotes (tapa na cabeça) , puxões de orelha, fiquei de castigo e ouvi a minha madrinha resmungando:
- Seu Artur podia fazer uma maldade com você!
 ADÁLIO morava naquela rua que fica por trás da igreja de Nossa Senhora da Conceição do Monte. Logo na entrada da casa tinha uma estátua de tamanho natural que já assustava a quem entrava.
Segundo eu ouvia falar, na casa dele se praticava a liturgia jeje-nagô e se manipulavam feitiços e despachos que se viam nas encruzilhadas da cidade.
Adálio era torcedor do Botafogo Cachoeirano. Muitas vezes ele chegou a sair no tapa com Renato Congo de Ouro que dizia "trabalhar" para o Fluminense Cachoeirano.
RENATO, mais conhecido como CONGO DE OURO era um mulato falastrão, dizia que fazia e acontecia, se auto proclamava protetor de políticos de influência. Certa feita eu ia passando e ele me chamou:
- Filho de Jessé!!!!
E então começou a falar com a cara quase colada ao meu rosto:
- Acabei de chegar de São Paulo, vim de avião, tudo pago pelo governador Adhemar de Barros !
Congo morava na Ponta da Calçada e quase sempre ficava escorando o balcão da venda de Ioiô de Ursecino.
O terceiro e último personagem chamava-se Antônio, um Babalaô muito afamado.
Naturalmente devido ao seu tamanho, era conhecido como ANTÔNIO BANANÃO.
Bananão era um homem elegante, andava de camisa Banlon, branca, de manga compridas, óculos Ray Ban original cujo estojo ficava preso ao cinto, sapatos Scatamacchia, brilhantina e perfume da Roger & Gallet. Era o posto do descuidado Congo de Ouro.
A casa de Bananão era no Curiachito, junto a casa da minha mãe. Para se ter acesso ao templo, tinha obrigatoriamente de passar por dentro da casa dele. O altar, à semelhança da igreja católica, existiam imagens e quadro de santos misturados com Oxalá e Xangô, castiçais com velas, incenso, copos com água e vários alquidares, ifás e tijelas de cerâmica.
Certo dia, encontrando-se comigo na rua ele me cumprimentou da maneira que sempre fazia: "ô seu menino,tudo bem?" O resto eu não conseguia escutar porque ele falava pra dentro com uma voz calma porém cavernosa.
Soube, depois, que era um convite para participar da festa do cinquentenário do Caboclo Juremeira. Claro que eu não ia perder a boca livre num local onde não se discrimina ninguém, onde todos são bem recebidos, ainda mais que o meu irmão, Erione,ficou encarregado de tocar o clarim na hora em que a entidade adentrasse ao recinto.
Ele pediu emprestado ao compadre Valdir o clarim da banda do Ginásio. Treinou a semana todinha. Na hora "h", diante de tantos amigos ávidos para fazer uma gozação. meu irmão estava tão nervoso que o solo que se ouviu era trêmulo e interrompido.rsrsrs Mas, isso e´outro "causo".
Bom final de semana,galera.






 
 

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