sábado, 28 de março de 2015

Em qualquer cidade do interior do Brasil, em qualquer época, grande número de pessoas são alcunhadas, recebem apelidos, e, maioria das vezes o próprio nome de batismo é ofuscado, ninguém sabe.
Nos que estou a lembrar agora, jogavam no futebol sanfelixta; Acaça, os irmãos Moqueca e Ensopado, Zeca Sopinha, Tondodia, Boto, Furico de Ouro (não era gay), Nardo Doido, Pão Doido...
No futebol cachoeirano tivemos Neném Vassoura, Futrica, Douvê, Duzentos e Cinquenta, Ferrolho, Nouzinho Chofer,Tonho Bozó, Zoião, Zé da Peida, Zé Arroto, Lourival Fracasso,Marreteiro,Porrão (Preto e Branco), Tabatinga, Formiga da Índia, Passarinho, Come e Dorme,...
Fora do futebol, tivemos em São Félix, Tanoeira, Peterê, Bufa Fria, e, na Cachoeira, Nozinho Pé de Ferro, Cotoco, Pistoleiro Bossa Nova, e amigos do meu pai, Burcano, Zelestreco, Ioiô Perna de Pau, Poporrô e Coquito. A lista é realmente interminável, você deve estar pensando um monte de gente. Eu mesmo tentaram apelidar-me de Vara de Tirar Caju, Espanador da Lua, Macarrão Dezoito. Não pegou,felizmente.
É claro que os tipos de rua, os que sofriam das faculdades mentais eram possuidores de apelidos que eles detestavam e reagiam de formas diversas.
O saudoso memorialista cachoeirano Chiquinho Mello nos falava de um tal Lagartixa, assim chamado porque tinha o hábito de ficar mexendo a cabeça pra lá e pra cá. Era um sujeito violento. Manobra, - ainda segundo Chiquinho -, usava uma batuta de maestro e andava regendo uma música que só ele ouvia. Adorava acompanhar a filarmônica Minerva.
 Petitinga e sua filha também apelidada de Petitinga ou Xangó (chamava-se Esmeralda) sempre presente nas festividades da igreja e figura presente no dia do aniversário do padre Fernando com um sabonete Gessy.
Dos que andavam nas ruas da cidade, tínhamos o apaixonado pela Lira, Durval Cocó, Zacarias Pé de Cachorro (andava vendendo pelas ruas os pães fabricados na padaria de Deorêdo), Vigário (entregava linguiça caseira fabricada por dona Antônia),Purrute, Urubu Marchante, Chico Bicho, Remelexo (fã ardoroso do presidente Getúlio Vargas)...Vamos nos deter neste artigo a três personagens; Tiloso, Garapa Pura e Maurílio.
Tiloso parecia com o acordeonista Sivuca. Era um sujeito que não ofendia ninguém. Quando a garotada enchia o seu saco ele ameaçava jogar uma pedra. Na parte da tarde, depois que ele tomava algumas doses do Fedegoso ou Jiló lá em Jorge da Arara, costumava cantar:
Tá na hora da onça beber água,
Quero ver todo mundo "trabaiá"
"Trabaia" aqui, "trabaia" lá,
Quero ver todo mundo "trabaiá"
A Onça dança com a "Barbuleta",
O Marreco dança com o Pavão,
Papagaio canta no poleiro
E o Marreco  no pandeiro
Faz a marcação"
Garapa Pura eu ouvia falar dele lá em casa. Quando alguém o via passar e dizia "Garapa Pura" ele retrucava: "Tempera fidaputa!"
Contavam lá em casa que em certa procissão, nos intervalos das filarmônicas Lira e Minerva, os fiéis começaram a entoar o conhecidíssimo hino sacro:
- Bendiito, Louvado seja !
Bendiito, Louvado seja,
O o Santíssimo  Sacramento.
Os An-anjos, todos os anjos...
Um gaiato ao ver o nosso personagem atacou:
- Garapa Pura!
E ele, dentro da melodia e sem perder o compasso:
- Garapa Pura é o cu da mãe !
Maurílio era sanfelixta. Gostava de perambular pelas ruas da Cachoeira, semi-andrajoso. A garotada o infernizava cantarolando uma musiquinha que ele detestava:
- Bilin Blin Blin! 
Bilin Blin Bão! 
Maurílio morreu, cadê o caixão?!
Ele dava palavrão, sacudia e mostrava a genitália, era um inferno mas, diziam que muitas mulheres gostavam.
Certa feita ele estava passando no passeio do sobrado do professor Salvador (atual Caixa Econômica) quando começaram a mexer com ele que deu a seguinte resposta ao olhar o sobrado onde eu morava:
- Cambada de fidaputa! Só não mando você tudo tomar no "seden" ir pra porra "purquê" a "muié" do doutor Luis Soares "talí" na janela.
Foi, durante muito tempo, a piada que mais se contava lá em casa. E eu fingia que não estava entendendo.


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