sábado, 4 de abril de 2015

MEMÓRIA
 Sábado de Aleluia
Ao contrário da sexta-feira, quando nem varrer a casa era permitido pela tradição, o Sábado de Aleluia era uma festa para a criançada. Quando davam 10 horas da manhã, os sinos das igrejas repicavam, o apito da oficina da Leste em São Félix soava insistentemente, fogos espocavam no ar, e a garotada feliz da vida saía pulando e gritando arrastando latas amarradas em barbantes fazendo uma barulheira danada pelas ruas da cidade. Depois a igreja mudou o horário para a noite e uma tradição acabou morrendo.
Quando criança eu ouvia a história do Calvário, de que o Senhor Jesus ao ser crucificado falou sete vezes. Sete vezes? Por que sete? Por ser um número cabalístico? Vamos conferir?
"Pai,perdoai-os porque não sabem o que fazem!"  (Lucas 23:34) * "Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso" (Lucas 23:43) * "Mulher, eis aí teu filho; olha a tua mãe (João 19:26-27) * "Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mateus 27:46) * "Tenho sede!" (João 19:28) * "Está consumado" (João 19:30) * "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" (Lucas 23:46)
A queima de "Judas" era uma festa que varava a madrugada, todo mundo queria ouvir o "Testamento". O boneco que seria queimado era fabricado por Zute Fogueteiro.
 Quando eu era menino, assisti a uma queima de Judas na praça doutor Milton. O boneco representava a figura do Amigo da Onça.  Um arame preso aos seus pés ficava distante, e um foguete amarrado ao arame foi acionado iniciando-se assim o foguetório. Se não estou enganado quem fez o "Judas" foi Estácio, filho mais velho de seu Câmara, chefe dos Correios no prédio da agência recém-inaugurada.
Fui autor de vários "Testamentos" que eram lidos pelo meu tio,Beline. "Judas" mesmo eu fiz apenas um, no dia da queima. O meu amigo-irmão professor Renato, meu vizinho, bateu à minha porta preocupado:
- Você me ajuda a fazer um "Judas"?  "Souza (irmão mais velho dele), inventou fazer uma quermesse em benefício da Irmandade do Rosarinhoi, providenciou tudo menos o Judas !".
Passamos em Antônio Porto e compramos serretas. Passando pela feita, compramos uma cabaça. Armado o "esqueleto" com as serretas onde amarramos uma tracaria com a bomba de maior explosão dentro da cabaça que representava a cabeça do boneco. O resto foi fácil: depois do enchimento com jornais velhos, vestimos calças, sapatos, paletó, gravata, pintamos o rosto e colocamos um chapéu de palha.
Havia queima de Judas em vários bairros. Na Rua Albino Milhazes, popularmente batizada de "Bacia do Iguape", reduto da boemia cachoeirana da época, Deraldos (relojoeiro e sapateiro), Zelestreco, Raimundo Santana, Domingão, Antônio de La Ponta, Burcano,Jessé (meu pai), Zeca Preta e Poporrô, havia uma concorrida queima de Judas. Mesmo depois da morte de alguns fundadores da "Bacia", Poporrõ manteve a tradição e ficou famoso por adiar a data para um outro final de semana. Certa feita eu o vi dormindo na porta da Leitalves abraçado com o seu "Judas".

 
 

 

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