sexta-feira, 3 de abril de 2015

RELIGIÃO/MEMÓRIA
Sexta-feira da Paixão
O Evangelho de João, testemunha ocular dos fatos por ele narrados em o seu Evangelho, nos fala do interrogatório de Pilatos a Jesus Cristo, da Sua crucificação e da uma morte, cuja ressurreição acabou por solidificar a crença naquele nazareno que foi imolado numa sexta-feira.
Nos meus tempos de menino, na realidade o evento se chamava de Semana Santa, durante a semana as famílias não comiam carne, e, no dia da paixão, as emissoras tocavam músicas clássicas. Nem todo o mundo tinha rádio, o crediário de eletro domésticos começou na Cachoeira com a "Casa Aurora" e em São Félix na loja de Albertoni & Bloisi, de sorte que o serviço de alto-falantes "A Voz da Cachopeira" só tocava naquele dia músicas clássicas.
Comiam-se peixes, mariscos e bacalhau do Porto. Vocês querem bacalhau? rsrs. Naqueles tempos todo o mundo podia comprar e comer bacalhau, surgindo até um ditado: "Pra que é, bacalhau basta!"
Nos dias atuais, todo o mundo embarcou no tal Coelho da Pascoa e a aquisição dos ovos da Páscoa tonaram-se praticamente uma obrigação.
Na piedosa procissão, as filarmônicas Lira e Minerva Cachoeirana se revezavam em dobrados e marchas fúnebres. Nos intervalos não havia cantoria dos fiéis como em outras procissões, apenas se ouvia o som da matraca tocada, antes, pelo comerciante Domiciano Bispo Dias, e, depois, por Edí de Gegeu.
Em locais predeterminados o cortejo parava, fazia-se silêncio para ouvir a "Verônica", uma moça da sociedade ensaiada pela professora Ursulina Pereira Luz cantar uma melodia tradicional num latinório confuso e ininteligível, mas era a tradição.
Quando a procissão recolhia começava uma vigília para visitação ao Senhor dos Passos que durava até as 22 horas. No adro da igreja da Ordem Terceira, dois ou três artesãos fabricavam e vendiam pulseiras e anéis de metal e arame artesanal.
O cinema exibia o mesmo filme com a sua lotação esgotada, sendo necessária a entrada de cadeiras emprestadas das casas vizinhas. O pessoal da zona rural até de outras cidades faziam questão de assistir emocionada o drama do Senhor Jesus. Muitos choravam copiosamente.
O ex-prefeito Julião Gomes, irmão de Poporrô, costumava contar que certa feita, durante a Semana Santa, encontrava-se armado um circo que resolveu encenar o ato objetivando, naturalmente, atrair parte do grande público.
Então, galera, quando começou a Via Crucis, quando o Mártir Sagrado caminhava para o gólgota,surpreendentemente o ator que representava Jesus arremessou a cruz de papelão para fora do palco e partiu de punhos fechados para agredir o "soldado romano" que estava, segundo ele, "aproveitando para baixa o cacete!"
Diante de uma platéia atônita, o "Cristo" partiu pra porrada justificando aos gritos:
- Você é despeitado, queria fazer o meu papel mas não teve talento suficiente!
Julião dizia que foi "Caifás" que conseguiu serenar os ânimos dos atores daquele circo, porém, o espetáculo foi prejudicado pois a platéia não parava de rir.
Meu filho, Lerinho, também contou um "causo" verídico que o meu caçula, Tinho Brito incluiu no rol das suas piadas prediletas. Aconteceu num auto da paixão "pop", espetáculo encenado na Praça da Aclamação, na cidade da Cachoeira.
No clímax do espetáculo, na hora da "ressurreição" quando o personagem que representava o Cristo ascendia aos céus, os fogos de artifícios acabaram atingindo a enorme cabeleira rastafari do ator, um negrão de quase dois metros de altura que deu um salto gigantesco soltando palavrão que foi ouvido por todo o público que caiu na gargalhada, pois o microfone da lapela estava ligado.
Feliz Páscoa, galera.
 

 


 
 


 
 

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