sábado, 2 de maio de 2015

Um amigo daqui do Rio de Janeiro que acompanha este blogger e se diz leitor assíduo, sobretudo dos "causos" que eu conto, me perguntou se efetivamente são verídicos, e eu respondi que sim, no entanto, a verdade tem de ser melhorada, é uma regra geral dos contadores de "causos".
Os rapazes da minha época, quando a gente podia tomar banho no banheiro do Caquende, muitos davam um entradinha na fábrica de aguardente Saracura e Tira Prosa de Edgar Teixeira Rocha, para, como gostava de dizer o companheiro de locução, Adílson Januário do Nascimento, "tomar do peito da vaca!"
O sapateiro Aloísio Berto da Silva resolveu criar a "Cabana do Pai Tomás" com uma decoração interessantíssima, tendo as paredes cobertas até o teto com junco, cortinas feitas de cordas e luminárias com arupembas, utensílio usado para peneirar farinha,
A "especialidade" da "Cabana" era a infusão de cachaça com cobra! Tinha gente que bebia e até saiu reportagens na televisão da Bahia e nos jornais. A "Cabana de pai Tomás" perdeu o status de biboca quando dona Lola passou a servir refeições e o negócio prosperou ao ponto de eles adquirirem o imóvel onde funcionou a "Pensão Marieta" e, depois, a "Casa de Saúde Santo Antônio" do doutor Aurelino, instalando ali um restaurante e uma pousada.
Biboca mesma, na inteira concepção da palavra era a de Bôbôco, ali mesmo na Rua 25 de Junho, na parte térrea do sobrado onde morava a família de Canibardo, lembram dele?
Ali em Bôbôco só existia um tosco balcão e uma velha prateleira cheia de garrafas vazias. A "especialidade" da casa era uma infusão de cachaça com jiló que foi batizada pelo advogado Raimilan de "uísque cachoeirano".
O bom de Bôbôco é que fiado não era problema, mesmo porque o próprio chegava junto, bebia rente com os seus clientes.
Quando Bôbôco começou pedir dinheiro adiantado para comprar jiló, todo mundo percebeu que o fim estava próximo; do bar e do próprio Bôbôco.
Uma casa comercial que a gente pode chamar de vendinha estava situada na esquina da Rua Inocêncio Boaventura com a Rua do Carmo. O seu dono era Jorge José de Freitas, Jorge Carteiro ou Jorge da Arara. Não sei quem o presenteou com a ave que acabou sendo incorporada ao seu próprio nome.
Aposentado dos Correios, Jorge vendia pães, bolachas, biscoitos, refrigerantes, cervejas, doce de banana, bombom de jenipapo e, também, infusão de folhas e raízes com destaque para o fedegoso.
 Certa feita, o velho Conrado Martfeld, um verdadeiro gentleman, que morava num sobrado na Rua do Carmo, ao informar-me que estaria mudando o domicílio para a Praça da Aclamação, disse mais ou menos o seguinte:
- Seu Jorge é uma pessoa muito educada, é atencioso comigo mas, tomo cada susto com uns gritos que ele dá tocando um sino...
Jorge tocava o sino e anunciava:
- Chegou o jegue !  Chegou o jegue!
"Jegue" era o doce de banana, assim chamado por ele porque era maior do que os doces de bananas vendidos na cidade.
Jorge não fumava e não bebia. O que ele gostava mesmo era dos embalos da Ajuda.  Ouvia com paciência a conversa dos caras cheios de goró e dizia que não era só a cachaça que mata, que a preguiça tem mandado mais gente para a "Cidade de Pés Juntos".
Uma vez alguém perguntou a ele por que ele tratava com deferência dois homens de rua, Teiú e Chico Bicho considerados como malucos.Ele respondeu que "doido tem se ser tratado com mais carinho".
Jorge era tão gozador que mantinha uma listagem com o nome dos que ali beberam e que bateram a caçoleta.
Jorge José de Freitas, Jorge Carteiro ou Jorge da Arara, figura na minha lista de personagens inesquecíveis.
Bom final de semana,galera.



 
 
 

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