sábado, 27 de junho de 2015

O sexto mês do ano não é apenas o mais frio na minha terra natal, Cachoeira, na Bahia; é o mês da laranja, do milho verde, do amendoim, do aipim, do inhame,da cana-mirim, do jenipapo,enfim, é o mês da fartura.
A tradição junina não é coisa nova e muito menos surgiu no Brasil, vem da Idade Média, na Europa, foi trazida pelos nossos avós portugueses fincando raízes nas plagas do norte e nordeste.
Antigamente os festejos começavam com as trezenas de Santo Antônio com rezas, ladainhas e muita guloseima. Um devoto do Santo muito conhecido foi Graciliano Ramos, o Gaçu, que roubaram a galinha e o episódio acabou entrando para o folclore cachoeirano. 
As novenas de São João também eram realizadas no seio das famílias que recebiam de portas abertas a todos os que chegavam, acendiam-se fogueiras, soltavam-se rojões e grupos saiam de casa em casa. 
Havia fartura de produtos vindos do São Francisco do Paraguaçu, Santiago do Iguape e de "marabaixo" (Nagé e Coqueiro). A feira era realizada ali mesmo na rampa do Cais Maria Alves (frente ao atual campo de futebol). Pela aproximação com o meretrício, a feira quase sempre terminava em tumulto.
Não havia proibição de soltar balão nem ninguém tinha consciência do perigo. Certa feita, Dadinho, velho companheiro de Os Tincoãs, resolveu fazer um balão de não sei quantos metros. Quando estava pronto, na manhã do dia de São João, eu tive de ficar no gradio do palanque a fim de segurar a ponta do balão, tão grande que era. Quando o bicho subiu, um vento conseguiu dobrá-lo ao meio e ele veio caindo,caindo, se aproximando do telhado da pensão de dona Lulu. Veja a foto montagem que fizemos. Tivemos de subir no forro do sobrado, retirar várias telhas e apagar a bucha ensopada de aguarás.
 Já contei em outras ocasiões alguns "causos" referentes aos festejos juninos. Um deles aconteceu na vizinha cidade de São Félix. O grupo de festeiros entrou na casa de Bojota tido e havido como bom anfitrião. A turma estava animada pelo acordeon de Hildinha Carneiro, irmã de Mário Codorna e da saudosa professora Marion, Dançando e cantando "invadiram" a casa de Bojota:
A fogueira está queimando / Em homenagem a S.João / O forró já começou / Vamos gente arrastar pé no salão!
Aí, amigos da Rede Globo, aconteceu o que ninguém esperava; na sala de visita acontecia um velório, a senhora de Bojota havia falecido, pessoas chorosas...Minutos que pareciam horas...Até que João "Tá com Sono", caixa do Banco do Brasil soltou um grito de guerra:
- Viva São João!
Todos gritaram:
- Viva !
João arrematou:
- Viva a defunta !
E todos responderam entusiasmados:
-Viva !
Até Bojota, o viúvo,  não conseguiu disfarçar o sorriso. 
Nos primeiros anos da Feira do Porto (vejam foto e observem que ocupava toda a área da orla), muito do que era costume, do que era tradicional era mantido, como as visitas que se faziam às casas. 
Nos tempos em que formar Quadrilha era apenas divertimento e não pra roubar a Petrobras, formou-se um grupo de que o meu irmão, Erione, lembrou-me certa feita:
Mateus Aleluia, Raimilan, Mario Codorna, Bira (filho dos professores Camilo e Clementina), Zeca Preta, Ninho Cascata, Daca, Lu (irmão de Raimundo que trabalhava no Bar de Brito na Rua da Feira) tocando acordeon e ele próprio,Erione Brito.
Como só existiam homens, alguns se vestiram de mulher a fim de fazer-se o par da Quadrilha. E rumaram todos para o Caquende. Ao passarem pelo bar de Jorge da Arara, ia passando um caminhão de aguardante. O encarregado achou interessante, apanhou algumas garrafas de ofereceu para a turma com as condições de fazer a propaganda. Mario Codorna iniciou o marketing:
-  Morava num palacete / Todo pintado de azul / Trocava tudo, tudinho / Pruma garrafa de Pitú !
E lá se foi a turma de casa em casa. Quando Mario lembrava soltava um verso novo com a marca da aguardente, o combustível que estava faltando. Ninho Cascata gritava assustado:
- Ai, meu Deus, uma cobra!!!
A turma em coro:
- Arruma um homem pra matar !
Por fim, foram até a residência do Juiz da Comarca, doutor Joaquim José de Carvalho Filho. Na ampla sala de visitas o bem humorado grupo dançava a quadrilha. Raimilan, que era advogado, começava a demonstrar um certo desconforto, temeroso de ser descoberto vestido de mulher. Percebendo o que estava acontecendo, Mateus meteu a mão e arrancou a peruca, então, o meritíssimo, assustado,perguntou para a sua esposa:
- Margarida, não é o doutor Raimundo ?
Ao lembrar as Quadrilhas um nome não pode ser esquecido: Manoel Bonfim, o Zinho da Prefeitura, que, com a ajuda de dona Lourdes,sua esposa, sem apoio oficial, durante muitos anos abrilhantou os festejos.
Além dos comerciantes antigos como Julinho Pedreira, Júlio Costa e Francisco Pinto, que vendiam fogos, dezenas de "Bozós" se encontravam em vários pontos da cidade, onde se podiam comprar a retalho, traques, coiós, bomba de parede, coriscos, foguetinho etc.  "Bozó" era um caixote de madeira com prateleiras forradas de papel de seda.
É com água na boca que estou a lembrar das guloseimas da época: canjica de milho verde, bolo de massa, aipim e massa puba, amendoim e milho cozidos, o licor de jenipapo feitos com aguardentes de qualidade fabricadas por Júlio Pedreira, Maneca e os irmãos Alarico e Edgar Rocha.
Meu saudoso amigo Roque Pinto(foto) herdou do seu pai, Francisco Pinto, o fabrico de vinagre e charutos e  vendia fogos. Roque manteve a tradição por certo tempo, depois, especializou-se na fabricação de licores como os de jenipapo, maracujá, amendoim, cajá, limão, obedecendo o critério de produzir bebidas de primeira qualidade, afastando o perigo de conter material danoso à saúde como o metanol industrial. 
O seu filho, Rosival, vem mantendo a tradição.
Graças ao santamarense Roberto Pinho,a Feira do Porto mudou-se do cais, ocupou a área da orla fluvial. No segundo ano dos festejos, já com o apoio da Bahiatursa, eu e Erione ficamos encarregados de embandeirar toda a orla que a cada ano fica mais bonita, graças ao talento de Waldomiro Gomes, o Pequenininho, um cara muito criativo e que é um perfeccionista por natureza. 
Vejam as fotos abaixo tiradas por mim no ano de 2001

A grande Epopeia:
25 de Junho de 1822
A grande preocupação dos patriotas brasileiros era que D.Pedro I proclamasse a independência do Brasil apenas do Sul e Sudeste. O Norte e Nordeste continuariam como Colônias de Portugal. O monarca brasileiro estava mesmo o trono português, o que acabou acontecendo, deixando ao filho menor de idade "a corôa, antes que alguma aventureiro lançasse mão dela".
Nos idos de mil e oitocentos, o governador das Armas da então província da Bahia era o Brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo, um sujeito arrogante, truculento e hostil para com os brasileiros. Mal havia chegado, antes mesmo de tomar posse, pressionado pelos portugueses, ele começou a usar a força policial.
Em 1º de fevereiro de 1822, a soldadesca de Madeira de Melo continuava a cometer abusos,chegaram a invadir o Convento da Lapa e assassinaram a religiosa Joana Angélica e feriram gravemente o capelão padre Daniel da Silva Lisboa.
As Câmaras de Vereadores da Cachoeira, Santo Amaro da Purificação, São Francisco do Conde e Maragojipe, hipotecaram integral apoio ao Clero.
Devido à sua importância econômica e posição estratégica, visto que a única via de acesso era fluvial, o êxodo de famílias inteiras, Madeira de Melo enviou uma canhoneira com um pelotão fortemente armado a fim de manter o controle e prováveis levantes. Dentre os refugiados, o advogado maragojipano Antônio Pereira Rebouças,(foto) casado com uma cachoeirana e pai de dois filhos cachoeiranos notáveis: Antônio e André Rebouças. Foi ele, o velho Rebouças que redigiu a ata histórica que desde as comemorações do Centenário do evento (1922) está sob a guarda do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, bem como as armas usadas no conflito e a bandeira oferecida por D.Pedro I.(foto abaixo)
 Em águas cachoeiranas, em 19 de junho, e, já no dia seguinte,soldados da escuna, armados de pistolas e espadas começaram a praticar toda a sorte de desordem, chegando a prender um religioso Carmelita que se posicionou contra os abusos praticados.
O resto da grande epopéia todos sabemos, a Câmara da Cachoeira foi a primeira Vila da Bahia a aclamar a regência de D.Pedro e a enfrentar com armas as hostilidades que culminaram com a prisão do comandante da canhoneira 1º Tenente Domingos Fortunato do Vale.
CURIOSIDADES SOBRE O 25 DE JUNHO
O TE-DEUM celebrado pelo padre Manoel Jacinto Pereira de Almeida, teve o acompanhamento musical do órgão tubular que havia sido instalado na Matriz, no ano de 1815. Quem ocupou a tribuna sagrada foi o padre de Santo Estêvão, Francisco Gomes dos Santos.

OS FESTEJOS COMEMORATIVOS tiveram início 10 anos depois, ou seja, em 25 de Junho de 1832, quando foi nomeada uma Comissão que angariou fundos através de subscrições populares. Da programação, além da celebração do Te-Deum, foram concedidos alguns títulos libertando escravos.
Nos anos seguintes, as celebrações que eram de cunho monárquico, contava também de um desfile com aquele quadro enorme de D.Pedro II, que participou do desfile até o ano de 1888, quando inclusive foi retirado do salão nobre da Câmara em face da mudança do regime para República.
O quadro só voltou à galeria da Câmara em 1907, durante a gestão do prefeito Virgílio César martins Reis, sendo presidente da Câmara Álvaro de Souza Brandão.
No mesmo ano, foi colocada uma gravura do jurisconsulto Augusto Teixeira de Freitas,e, dezoito anos depois,o de Ana Nery.
O quadro de Antônio Parreiras, foi colocado na Câmara em 25 de junho de 1931.

A Cachoeira sempre recebeu visitas ilustres durante a sua data maior. Na foto acima, o então governador General Juracy Montenegro Magalhães chega à cidade, ladeado por autoridades e o Sargento Idelfonso do TG 114 local, sendo fotografados por Djalma S.Bernardo que na foto, curiosamente é fotografado em ação pelo seu colega Valter Evangelista.
 
Nas fotos ao lado, o governador participando do almoço na residência do prefeito Julião Gomes, ladeado pela primeira dama do estado,dona Lavínia, e a primeira dama da cidade, Laura Bárbara Soares Gomes.
Na foto seguinte, S.Excelência apreciando o desfile das escolas municipais.
 A sessão do 25 de Junho tem como ponto alto os chamados ORADORES OFICIAIS. Na edição do jornal A Ordem de junho de 1987, eu publiquei uma relação à partir do ano de 1930, porque nas minhas pesquisas havia encontrado sem sequência dos anos, Benigno Assis (1921),na comemoração do Centenário (1922) o secretário do Instituto Geográfico e histórico da Bahia, Bernardino de Souza, e, em 1925, Augusto de Azevedo Luz.
O orador do Sesquicentenário (1972) foi Antônio Carlos Santos de Souza Onofre, o padre Tonton, na foto discursando numa solenidade que eu fui o mestre de cerimônia.
A primeira mulher a ser escolhida oradora foi a professora Diva Marques (1963).
No ano de 1979 a Câmara estava dividida, de sorte que, a escolha do Reitor Augusto Mascarenhas se deu sob protestos.
O caso mais ruidoso, no entanto, se deu no ano de 1991, quando o orador escolhido, Alberto Paraíso Borges foi chamado às pressas para Salvador, quase na hora da sessão, por motivo de sua exoneração do comando da PM, sendo substituído pela sua esposa, Maria Hilda Baqueiro Paraíso.
Em junho de 1987, quando era prefeito Geraldo Simões Santos (foto), um grupo de jovens da Igreja Católica ao tomarem parte do desfile levavam três faixas a saber:
"Não à divisão da Bahia", " Nem por amor se divide a Bahia" e "Morra Simões mas viva a Bahia".
Pretendiam-se dividir o território baiano e os jovens protestaram. A faixa "Morra Simões" foi um episódio de campanha política em que o cachoeirano e fundador do jornal A Tarde, Simões Filho participava. Alguém da multidão gritou; "Morra Simões Filho" e ele retrucou: "Morra Simões mas viva a Bahia!".Acontece que, alguns partidários do prefeito atribuíram o "Simões" como sendo a pessoa de Geraldo, que havia um duplo sentido. Depois do quieta-acomoda tudo terminou em paz.
Eu fui honrado com a escolha para ser orador no ano de 2001, coincidentemente o primeiro do século e do milênio.

Em 6 de agosto de 1823, pouco mais de um ano da magana epopeia, o deputado geral cearense João Antônio Rodrigues de Carvalho, apresentava uma Indicação propondo que as vilas da Cachoeira, Santo Amaro da Purificação e S.Francisco do Conde, fossem reconhecidas com títulos honoríficos.
A Cachoeira  o foi através da Lei nº43 em 13 de março de 1837 com sua elevação aos foros de cidade com o título de HERÓICA.




 
 


 







 

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