sexta-feira, 31 de julho de 2015

 
MEMÓRIA
Fuá de boi
(foto de Arnol Conceição)
Houve um tempo em que uma das fontes de receita do município da Cachoeira era a pecuária de corte. Cândido Cunegundes Barreto,  )foi Intendente (Prefeito) da Cachoeira no período de 1928 a 1930), nascido no distrito do Capoeiruçu, era um pecuarista conhecido na Bahia. Ele não apenas vendia o gado,  abatia e comercializava em açougues espalhados pela cidade.
Continuando a falar sobre um período em que eu nem sonhava nascer, o Engenheiro Civil Humberto Pacheco de Miranda, que foi Prefeito da Cachoeira no período de 1932 a 1934, no Relatório enviado ao então Interventor Federal da Bahia, nos conta o seguinte sobre "o transportes de carnes verdes". Abrimos um parêntese: "carne verde", na minha terra, era como se chamava carne fresca, recente. Aliás, de meio-dia em diante,como não havia frigoríficos,os açougueiros vendiam a chamada "carne virada" a preços módicos. Quem fosse ao abatedouro conseguia fato de graça, ninguém nem sabia que existia um petisco atual chamado "dobradinha". Quem comprava fato, no "fateiro" dizia que era para o cachorro.
Assim escreveu o Prefeito Humberto Pacheco:
"Transporte de carnes verdes - Serviço que de perto interessa à higiene e saúde da população, o de transporte de carnes verdes da Cachoeira, tal como se fazia ainda em 1932, era deprimente e vergonhoso para nós. Conduzia-se a preciosa alimentação sobre costões de animais arrealados com imundas cangalhas, os quartos sanguinolentos das rezes expostos a um sol inclemente e à voracidade dos mosquitos, quando não cobertos por encerados cujo estado de limpeza, em vez de preservá-los de insetos, parece que ainda mais os incitavam à aproximação, pelo mau cheiro que constantemente deles se desprendia"
"Incapaz de, pela falta de recursos materiais, organizar o serviço às custas da municipalidade, mas firme no propósito de, uma vez por todas, acabar com o vergonhoso e anti-higiênico transporte, fia a 8 de junho de 1933, publicar no órgão oficial de então, O PEQUENO JORNAL, um Edital de concorrência para esse serviço, fazendo constar em duas de suas cláusulas o preço máximo de 3$000 (três mil réis, no padrão monetário da época),para  cada rês abatida e dando preferência, em igualdade de condições, às propostas que fossem apresentadas pelos próprios abatedores. A essa concorrência, só compareceu o senhor Osvaldo Cortes de Oliveira, cuja proposta, de acordo com o Edital, foi aberta a 30 dias do mesmo més e ano.  Assinado o seu contrato a 24 de setembro depois de legalizado todo o processado pela administração municipal, a inauguração do novo serviço teve lugar às 14 h. do dia 28 de outubro do mesmo ano".
"O serviço atualmente feito por meio de duas carroças construídas sob a fiscalização do município, e adrede preparadas para conduzir a carne dependurada em ganchos de ferro no seu interior".
Da esquerda para a direita: Numa inauguração, o governador ACM, e, ao centro o pecuarista Osvaldo Cortes de Oliveira. Na foto central, a viatura usada para transporte do gado abatido. Na última foto, o pecuarista e comerciante Robustiano Caetano Pontes.   

 Como é que se estão transportando as carnes que o cachoeirano atualmente consome? Responda quem souber.
Quando eu era menino, vi muitas boiadas descendo a ladeira velha de Muritiba, subindo a Rua da Feira e, logo depois, a ladeira do Capoeiruçu. O grande pecuarista era seu Pontes (vide foto). Eu estudava no Montezuma, muitas vezes filei aula a fim de ver o embarque do gado em saveiros com o lastro cheio de areia, pois o gado era atirado de cima do cais. A expectativa da galera era que algum boi fugisse, era o que a gente chamava de fuá de boi.
Lembro de um boi usando máscara - considerado indomável -, e que invadiu a barbearia de Ananias Aragão, que funcionava na parte térrea do sobrado do relojoeiro Aloísio Mendes.
Recordo do "boi de seu Aurino", um boi mansinho mansinho que ficava pastando na área onde é o campo de futebol, no Calabar. Todo mundo falando de cinema naquela jardim frente ao Colombo, inclusive Adílson Nascimento, que era operador do Cine Glória. Adílson sofria de dores reumáticas. De repente lá vem o boi em disparada. Alguém gritou: "è o boi de seu Aurino!" Não era. Foi um corre corre danado. Quando tudo se acalmou, lá estava Adílson, o primeiro que correu, atrás do balcão do bar de seu urbano.
No Jardim Grande armou-se um circo bem pobrezinho, lonas rasgadas, era um circo de touradas. O nome do circo não sei, sei apenas que todo mundo chamava de Circo de Pelanca. Pelanca era o nome do palhaço toureiro.
O toureiro propriamente dito era um tal de João Sem Medo. Walter Gavazza tomou a frente para ajudar o circo que até lonas novas comprou ao sair da Cachoeira.
Era ele, Gavazza que "intimava" os amigos e conhecidos a frequentar o Circo da Pelanca, anunciaodo:
- Hoje o João Sem Medo vai cagar no picadeiro...consegui que Vanete Pinheiro me emprestasse um boi valente, não é um boi do cu branco qualquer!
Das minhas brincadeiras de criança não faltava o "cavalo de flecha" e os personagens era os vaqueiros de seu Pontes: Arnaldo e Vitô.
A boiada e o boi em particular fizeram parte dos meus sonhos de criança, por vezes pesadelos. Sonhava que vinha um boi disparado descendo a Rua da Feira e eu sem conseguir subir a soleira do sobrado onde eu morava, junto ao prédio da Lira Ceciliana.
 








 
 

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