segunda-feira, 20 de julho de 2015

PESQUISA
O cinema em S.Félix e Cachoeira
O memorialista Francisco José de Melo, meu saudoso amigo Chiquinho Melo, no seu precioso livro Crônicas Memoriais, nos informa que, o Cine Teatro Cachoeirano, o CTC, foi fundado no ano de 1922, e que ele próprio começou a frequentá-lo três anos depois, portanto, em 1925.
Em 1º de setembro de 1916, vinha à lume a revista de publicação quinzenal chamada A Árvore, cujo editor era Ernesto Malheiro. A redação da referida revista era na Rua Rodrigo Brandão (Rua do Fogo) nº 9, era impressa nas oficinas gráficas situada na Rua 20 de dezembro n°26 na vizinha cidade de São Félix. Colaboravam com A Árvore, Alcides Soares, Augusto de Azevedo Luz, Durval Chagas, Maciel Júnior,Sabino de Campos e Pacheco de Miranda Filho.
Naquela primeira edição e nas seguintes, (ano de 1916), tomamos conhecimento da existência das seguintes casas de espetáculo: Cine Avenida e São Félix, na vizinha cidade e no Elegante Cinema, na Cachoeira. Em assim sendo, o Cine Teatro Cachoeirano, - daqui pra frente apenas CTC ´-,não foi o primeiro cinema a ser instalado na Cidade Heróica. 
O CTC com um pequena torre e o maestro Frois
O Elegante Cinema foi instalado exatamente no dia 18 de janeiro de 1914, funcionava na Rua Rui Barbosa (então Rua das Lojas), sob a direção do maestro e regente da Minerva, Francisco Fróis, autor de algumas Ladainhas e da famosa Jaculatória à Virgem do Rosário. 
Segundo A Árvore, "O Elegante Cinema vem funcionando regularmente, exibindo películas de fino enredo passional e urdidura artística". Também o Avenida e o São Félix, ainda de acordo com a publicação a que estamos nos aludindo, "trabalham no afan louvável de prodigalizar aos seus habitués, horas de prazer, focalizando nas suas telas as criações afamadas de fábricas de renome mundial em assuntos cinematográficos".
Naqueles tempos, usavam-se palavras em francês, como no presente se faz com o inglês; habitués (frequentadores), avant-premiera (primeira mão), matinée (sessão pela tarde), soirée (sessão pela noite), etc.
O Elegante Cinema funcionou por pouco tempo.
A Cachoeira e São Félix não possuíam, ainda, energia elétrica. A da Cachoeira foi inaugurada em 6 de fevereiro de 1930. O CTC, conforme Chiquinho Melo, tinha geradores instalados na Ladeira da Cadeia (antiga), atual Benjamin Constant.
O proprietário do CTC foi o doutor Cândido Elpídio Vacarezza (foto)Era um cachoeirano de visão empresarial, foi Intendente (1926/27 e Prefeito em 1931.
Chiquinho Melo nos detalha nas suas Cronicas Memoriais, que a bilheteria ficava a cargo de José Amaro Lopes (pai do saudoso amigo Zé Minho); na portaria, seu Emílio Melo, avô de Cleonice, Egberto, Perolina e Laudílio; o operador era Antero Silva, mais conhecido como Terinho, tio de Lêda Margarida, nossa assídua leitora.
Como na época de Chaplin,Tom Mix e Buck Jones o cinema era mudo, para acompanhar as películas, existia a figura de uma pianista. No Elegante Cinema era  dona Iazinha Soares (irmã do advogado Luiz Soares), e, no CTC, dona Hermínia, depois dona Benícia, apelidada de "Treme-treme".
O cinema falado na Cachoeira se deu a partir de 21 de junho de 1937. De novo o pioneiro foi o CTC, onde de fato, desde a sua inauguração, foi palco não somente de grande filmes mas, de recitais, show de grande artistas como Sílvio Caldas, Alvarenga e Ranchinho,Orlando Silva e concertos das filarmônicas da região e da orquestra Sinfônica da Bahia, em 12 de setembro de 1948, regida pelo padre Mariz.
A Companhia de Teatro Olímpia da Bahia, que jamais havia se apresentado no interior, se apresentou no palco do CTC. Ali foram encenadas as seguintes peças: Nos pelas Costas, Então salve a China, Os dois Sargentos, Fruto Proibido, O Trabalho, Brilhante das Lavras e João e Maria.
Segundo os jornais A Ordem, Pequeno Jornal, O Social e A Cachoeira, os artistas mais apreciados pelo público foram Norberto Teixeira, Isabel Ferreira, Inácio Brito e Modesto de Souza.
Eu comecei a frequentar as matinés do CTC no final da década de 50. Na bilheteria quem trabalhava era uma senhora que todos chamavam de "dona Vivi". Eu tinha a impressão que ela tomava uns aperitivos, nos domingos, pois chegava alterada, discutia com a garotada que ficava zoando a pobre coitada:
- Dona Vivi...
- ada!
- Dona Vivi...
- ada !
 A portaria ficava a cargo de seu Antônio, sempre vestido de branco. Ele também tirava uns roncos depois que a película começava dando chance para que os chamados "capitãs de areia", meninos sem grana, pudessem entrar de graça. presenciei algumas vezes o operador do cinema, Renério e o seu auxiliar Mundinho Burilão oferecerem gratuidade a quem se prestasse a levar uns "cocorotes" (cascudos, tapas na cabeça). Pura maldade.
O dono do cinema, Ioiô Vacarezza foi quem substituiu o velho Vacarezza quando este faleceu em Salvador em 15 de julho de 1945.
Os meninos da minha época, além da troca de revistas em quadrinhos, colecionavam impressos em papel quadros de películas com artistas famosos. O fotógrafo Djalma São Bernardo é quem fazia.
O CTC foi comprado pela Ciª Cinematográfica Frederico Maron, proprietário de vários cinemas, e foi reinaugurado com o nome de Cine Glória em a noite de 14 de maio de 1952, com a exibição do filme O Corcunda Notre Dame. Eu estive presente na noite seguinte, quando foi exibido o filme Os Amores de Carmen. Acabei ficando apaixonado pela atriz Rita Hayworth (foto acima)
No palco do Cine Glória apresentaram-se artistas de sucesso da época de ouro do rádio: Vicente Celestino, Dóris Monteiro, Caubi Peixoto, Ângela Maria...
Em 1960, eu fazia locução em A Voz da Cachoeira com Adilson Januário do Nascimento, um grapiúna que veio para ser operador do Cine Glória. Surgiu uma vaga deixada por Ivan Rodrigues que foi trabalhar na firma Magalhães e Ciª., Adilson, então, me indicou ao então gerente do cinema, Osmundo Araújo, e eu trabalhei no Glória durante algum tempo, até que fui nomeado para trabalhar na Prefeitura na primeira gestão do prefeito Julião Gomes.
Na foto abaixo,da esquerda para a direita, Osmundo Araújo gerente do Cine Glória (depois meu colega no Banco da Bahia),Erivaldo Brito (empunhando um microfone) e Adilson Nascimento.



O Glória, aos domingos, tinha locais "marcados" que se guardavam para familiares retardatários (na parte térrea), por vezes entravam cadeiras extras para as laterais, todo mundo se apresentava bem vestido, quando a projeção começava ninguém podia fumar. No mezanino e na parte mais acima ainda, que a patuleia chamava de "poleiro" ficava a turma da pesada, os humildes, e as putas.
O Cine Glória possuía uma amplificação estereofônica, filmes em Cinemascope e 3ª dimensão, além de lançamentos simultâneos com os cinemas da capital.
 Em dezembro de 1960, com a chegada da televisão (TV Itapoan), com a venda de aparelhos no crediário (Albertoni Bloisi, em S.Félix, Casa Aurora, na Cachoeira), a concorrência ao cinema se fez sentir. Telmo Luís Ramos Sampaio (foto) que já era gerente do cinema de São Félix, passou a controlar o cinema da Cachoeira, dando-lhe o nome fantasia de Cine Real, depois, em 1987 de Cine Astro, depois retornou ao antigo nome, Cine Teatro Cachoeirano. Telmo reconhecia que, para aplacar os prejuízos da semana, programava filmes eróticos (vide foto de Arnold Conceição). Cheguei a sugerir a ele que criasse uma espécie de "Sócio do Cinema", a pessoa pagava uma mensalidade que daria o direito de assistir tantos filmes. Isso daria a ele um capital de giro tão necessário para cobrir seus custos e uma previsão do que ele poderia alocar ou não.
Infelizmente, depois de uma grande cheia do rio Paraguaçu (eu já estava morando na Vila Residencial em Muritiba), Telmo estava de vassoura em punho em cima da marquise do cinema, perdeu o equilíbrio, caiu, teve fratura craniana e veio a falecer.
Recentemente, seguido li em O Guarany, o CTC voltou a funcionar, sob a direção da Faculdade e do Curso de Comunicação. Não sei se regularmente mas, voltou, ainda bem, Aquele local, pela sua história, pelo seu passado, jamais poderia ser profanado com tempos de exploração da fé do incautos, como de fato aconteceu em várias casas de espetáculos pelo Brasil afora.






 
 

 

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