sexta-feira, 21 de agosto de 2015

 
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A Irmandade e a festa da Boa Morte
Na foto acima,dona Estelita abraça uma das Irmãs que é, também,Ialorixá.


Talvez as enchentes do Rio Paraguaçu tenha sido mais badaladas e fotografadas do que a irmandade da Boa Morte da minha terra natal, Cachoeira, na Bahia. Mesmo assim durante muitos anos, nem mesmo a comunidade cachoeirana prestigiava as solenidades religiosas. Sem uma referência quanto a uma sede própria, as irmãs alugavam uma casa qualquer,e, durante a chamada "vigília", muitas vezes terminava em porrada e na delegacia de polícia. Na missa e na procissão, eram quatro gatos pingados, mas, na hora do rango farto e saboroso...
A festa da Boa Morte tornou-se conhecida nacionalmente após as reportagens da então prestigiosa revista semanal MANCHETE, edições de 21 de outubro de 1798 e de 20 de setembro de 1986, do decisivo apoio da Bahiatursa, órgão oficial do turismo na Bahia e de fotógrafos como Aristides e Adenor Godim.
No ano de 1986, a fim de escrever um artigo sobre as origens da Irmandade, fui procurar Manoel Mateus Ferreira, (foto) antigo mestre da ourivesaria cachoeirana, mais conhecido como Neco Ourives, único sobrevivente da extinta Orquestra da Ajuda e assíduo colaborador memorialista do semanário Correio de São Félix da vizinha cidade. 
Inicialmente, seu Neco falou-me de uma tradição oral sobre a existência, no passado, de uma "Caixa de Alforria", destinada, logicamente, a beneficiar negros escravos, e elas próprias pertencentes a Irmandade.
Naqueles tempos, aos negros não era permitida até frequentar as dependências do Hospital da Santa Casa.   Misericórdia!
 Segundo seu Neco, 20 anos antes da Abolição da Escravatura, em 1868, portanto, aportavam na Cachoeira alguns africanos devotos de Nossa Senhora. Ao chegarem,como era natural, encontraram com pessoas da mesma etinia. Dentre essas, uma crioula de nome Maria Daria, que morava na Rua do Carmo e que nas quartas e sábados, em sua casa, rezava o Ofício de Nossa Senhora. Começava aí, galera, a devoção sob a invocação de Nossa Senhora da Boa Morte, e que tomou um impulso danado por que uma das rezadeiras vivia maritalmente com o festejado maestro Cazuzinha, da filarmônica Minerva Cachoeirana.
A Irmandade se estruturou e tomou corpo,sobretudo pelo apoio das outras Irmandades já existentes, sendo construída no Convento do Carmo um altar dedicado à Santa. Como na Cachoeira daqueles tempos existia um calendário religioso muito extenso, foi acertada a data de 13 de agosto para início da s festividades, encerando-se no dia 15 com a procissão de Nossa Senhora da Glória.
No ano de 1906, - ainda segundo seu Neco -, com a chegada do frei Mariano, na qualidade de Provincial Reitor do Convento do Carmo, em vista da necessidade de algumas obras de reforma, algumas Irmandade tiveram de mudar de domicílio. A Irmandade da Paciência foi transferida para a igreja do Amparo, a irmandade dos Martírios, para o templo dos Remédios,e, por fim, a Boa Morte para a Matriz de nossa Senhora do Rosário, cujo vigário, monsenhor Manoel José Novaes destinou que a imagem ficasse no antigo consistório do sagrado Coração de Jesus.
Mas, Senhores e Senhoras, nem sempre a Igreja e a Irmandade viveram em harmonia. Todos na Cachoeira devem lembrar quando a festividade foi transferida para a Igreja Brasileira, no Cucuí, e, depois, na capela do prédio da própria Irmandade, imóvel que foi desapropriado e reconstruído pelo estado da Bahia, graças a um artigo que o renomado escritor baiano jorge Amado escreveu para o hoje extinto diário carioca Jornal do Brasil. Aí a festividade bombou, tornou-se internacional, presença de vários turistas, então, como era de se esperar, pessoas sem qualquer identidade co  a Irmandade começou a aparecer, a dar pitaco.
Na festa do ano de 1987, eu era redator-chefe de A Ordem, escrevi uma reportagem repudiando um incidente entre uma advogada local com uma equipe de produção independente e da TV Educativa de Nova Iorque. As referidas produtores concordavam em pagar uma importância maior do que os US$ 3 mil mas a advogada exigia que fosse "no ato". Assim, não houve acordo e o assunto dividiu opiniões.
Para o leitor deste blogger que tiver interesse em saber mais, se quiser pesquisar sobre etnologia e situação sócio-religiosa,aconselho os seguintes livros: "Devoção e Culto a Nossa Senhora da Boa Morte" - 1981 - de autoria de Raul Lody, e "A Boa Morte em Cachoeira" - 1988 - do então acadêmico Luiz Cláudio Nascimento, ambos chancelados e editados pela Bahiatursa.
Na Missa Solene,as Irmãs da Boa Morte festejam a Assunção de Nossa Senhora - Foto de Vantoen P. Junior - Revista MANCHETE nº 1796 de 20/09/1986

 

 
 



 





 

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