sexta-feira, 11 de setembro de 2015

 

As enchentes do Rio Paraguaçu
Marés de Março
As grandes cheias do rio Paraguaçu, como veremos mais adiante, aconteceram de forma repetida nos meses de março, que a prosódia popular batizou de "marés de malço". O fenômeno tem a explicação de uma aproximação do planeta terra com a lua.
 
As Grandes Enchentes
Desde  os tempos de simples povoado, os moradores da Cachopeira conheciam e enfrentavam o desastre das periódicas cheias do rio Paraguaçu. O próprio Adorno, donatário das terras cachoeiranas instruiu que a sua casa fosse construída no Largo da Ajuda, num ponto elevado e livre das enchentes. à excessão da Igreja Matriz, "que deveria ser construída em zona importante," todos os outros templos e construções como hospital, Casa de Câmara e Cadeia, foram construídos em pontos a salvo das cheias.
Se a gente for descrever para a galera que não alcançou, como é uma enchente, a gente diz que a coisa começa sempre da mesma forma: inicialmente o rio muda de coloração em decorrência das águas que recebe de diversos afluentes. As águas vão-se avolumando, a velocidade aumenta, sobre o leito correm grandes volumes de vegetação aquática conhecida como "baronesa".
Quando as águas começam a "lavar o cais", os que moram nas partes mais baixas procuram transportar as suas coisas para lugar seguro. Os prejuízos são inevitáveis e a exploração do aproveitadores também
Quando as águas voltam ao normal, maioria das ruas estão cheias de lama mal cheirosa, areia e vegetação aquática, moveis, colchões, sofás e outras peças do mobiliário interditam a passagem.
A limpeza e desinfeção das ruas é demorada. Socorro com víveres, roupas e ajuda aos desabrigados que chegam não atingem aos necessitados.
Através da tradição oral, registros fotográficos, minuciosos relatórios e noticiário dos jornais da época, ficamos sabendo das grandes enchentes do rio Paraguaçu:  1792 1822, 1839, 1845, 1865, 1866, 1875, 1882, 1890, 1892, 1905, 1910, 1911, 1914, 1915, 1919, 1921, 1930, 1940, 1947, 1952, 1953, 1960, 1964 e 1969.
A cheia do ano de 1792 foi registrada com espanto porque "atingiu os três primeiros degraus do edifício da Casa de Camara e Cadeia" (Atual Camara de Vereadores).
No ano da grande epopéia cachoeirana, 1822, tivemos, também, uma cheia de grande proporções,e, finalmente,em o ano de 1939, "quando as águas subiram tanto que atingiram o prédio onde foi a primeira estação da estrada de fero Central da Bahia na Cachoeira"
A chamada "enchente grande" do referido ano de 1839 está descrita nas "Efemérides" dos doutor Aristides Milton. Quando as águas baixaram, (a enchente começou a 19 de dezembro, prolongando-se até janeiro do ano seguinte), o presidente do Governo Provincial enviou à Cachoeira o engenheiro holandês Augusto Weyll a fim de elaborar um minucioso relatório sobre o ocorrido e a solução para o problema. Vejamos alguns tópicos do referido Relatório:
"Cachoeira, como também São Félix, estão situadas em terrenos bastante baixos, circuladas de morros e o rio Paraguaçu, abaixo das referidas localidades, fica muito estreito, razão pela qual as águas dos montes permanecem presas em frente às cidades e levam tempo para desaguar".
E o engenheiro holandês apresentou a sua proposta de acordo com o que acontece no seu país:
"A prova do afirmado acima,encontra-se no fato de que, os proprietários e mais moradores perto do lagamar do Iguape em que o rio desagua, quase não foram incomodados pela enchente, e, na segunda parte do rio, entre o lagamar e a Bahia de Todos os antos, as águas ficaram quase na altura ordinária com a maré cheia".
"Para facilitar o desaguamento do rio, e para que a cidade da Cachoeira ficasse livre das cheias, seria preciso um trabalho de bastante extensão, o meio mais óbvio e certo para prevenir estragos futuros: a construção de um dique feito na altura de 30 palmos (seis metros e sessenta centímetros) acima do cais existente, desde o Monte da Conceição (atrás da estação da Leste) até o monte do Engenho (Tororó).
O total do investimento do chamado dique cachoeirano estava estimulado em 'seiscentos contos de reis'.
O nobre engenheiro reconhecia que o seu plano deixaria São Félix exposto, sendo necessário construir-se por lá também um dique, e o que era pior, com o tempo, o leito do rio ficaria inavegável em decorrência do acúmulo de areia". Belo projeto! rsrsrs.
Entre os anos de 1907 e 1920 aconteceram cheias que acabaram por prejudicar as obras da hoje submersa barragem de Bananeiras que estava sendo construída apenas para geração de energia. O engenheiro sanfelixta Américo Simas observava o fenômeno da seguinte maneira e apresentava a sua solução técnica:
"Por  um rápido estudo que fizemos, verificamos que, somente acima dos 2 mil metros cúbicos por segundo de descarga, as águas do Paraguaçu invadem as cidades de São Félix e Cachoeira, de modo que, se fossem construídos reservatórios de volume conveniente, não deixando passar descarga superior aos 2 mil metros cúbicos, as enchentes deixariam de prejudicar as duas cidades".
E o ilustre engenheiro prossegue esclarecendo:
"Imediatamente nos ocorre construir um ou mais reservatórios que tenham tal capacidade para armazenar o volume de 2 mil metros cúbicos por segundo, para restituí-lo posteriormente"

Barragem de Bananeiras e o Jardim Grande  (enchente 1947), Enchente de 1981 durante a  construção da barragem de Pedra do Cavalo.
 
Março de 1960 – A maior de todas
No dia 4 de março de 1960, Cachoeira e São Félix foram atingidas por violenta trovoada seguida de fortes aguaceiros. Aquela chuvarada já havia caído dias atrás nas bacias dos rios Timbora e Jacuípe, afluente do rio Paraguaçu.
Poucas horas depois, as águas invadem as ruas das duas cidades. Tão rápido quanto subiram as águas voltaram ao normal. Então, quando ninguém mais esperava, o rio voltou a avolumar-se e as cidades foram invadidas pelas águas do rio. As fotos abaixo, de autoria do fotógrafo Djalma Bernardo darão uma idéia do que foi.

A ponte D.Pedro II sofreu grande avaria sendo desviada do seu eixo na parte da entrada de cidade de São Félix. Foram necessários vários anos para que o reparo se fizesse.
Durante a construção de Pedra do Cavalo (ano de 1981) e depois disso, por um erro operacional, São Félix e cachoeira sofreram com as águas volumosas do rio Paraguaçu.







 

Nenhum comentário:

Postar um comentário