sexta-feira, 23 de outubro de 2015


ERIVALDO BRITO

A minha terra natal, Cachoeira, na Bahia, empapada em movimentos históricos e berço de vultos ilustres de destaque e importância no cenário nacional, por outro lado, devido mesmo a sua condição, no passado, de entreposto comercial da maior importância, faziam parte da população, bandidos perigosíssimos e também mulheres violentas, como as três Marias; Maria Bendengó, Maria Humaitá e Maria Corribão.
Dentre os facínoras a memória da cidade registra os nomes de Basílio, Pé de Rodo, Alfredo Carneiro, Cabra Macho, os irmãos Aurélio e Clemente, Caboco (personagem central do caso que vamos contar), João Vieira, Benígno, Viola, Raimundo Vitório, Mão-de-Orelha, dentre outros lembrados por Milton em suas Efemérides Cachoeiranas. 
Sabino de Campos, o autor da letra do Hino da Cachoeira, em seu livro de memórias intitulado "A Voz dos Tempos", narra a história de um valentão chamado Zé de Bráulio, que desafiou o temido delegado de polícia, Henrique de Freitas.
O delegado se encontrava na loja de tecidos de Pedro Ribeiro, quando Zé invadiu o estabelecimento armado com um punhal, bradando:
- Quem vai rasgar a carta de Henrique de Freitas sou eu !
"Rasgar a carta" é o mesmo que acabar com a fama.
O delegado se livrou do primeiro golpe e entrou em luta corporal com o seu agressor. Os soldados não demoraram em chegar. No dia seguinte, para surpresa geral, o delegado mandou soltar o Zé de Bráulio dizendo que ele admirava o destemor e o cabra macho.
A antiga Praça da Manga, nas proximidades do extinto Asilo Filhas de Ana, atual Sacramentinas, era um local onde convergiam e transitavam os valentões, todos nus de cintura pra cima (na época os homens andavam de paletó e chapéu), armados de peixeiras e facões, em geral levando barris de mel bruto que vinham dos Engenhos de cana-de-açúcar para serem estocados e ou embarcados em saveiros que ficavam atracados nas proximidades. 
Um dos cabras mais cruéis e violentos era Caboco, amasiado com uma das Marias, a Maria Bendengó.
Certo dia, C aboco teve uma desavença com um companheiro. Ambos desembainharam os facões e entraram em luta como se esgrimadores fossem. E foi juntando gente. Ninguém se atrevia a desapartar.  Aconteceu, então, um certeiro golpe de facão que decepou a mão de Caboco, na altura do punho. A multidão ficou estarrecida com a cena. Caboco, com a mão direita, espetou a mão decepada que estava no chão, levantou-a como se fora um trofeu. O trem vinha chegando de Machado Portela e acabava de atravessar aponte D.Pedro II. O rio Paraguaçu recebia na ocasião grande volume de água de seus tributários, a correnteza estava muito forte. Lavado de sangue, Caboco atravessou o portão e saiu correndo para o meio da ponte,e, se arremessou na correnteza, desaparecendo para sempre no torvelinho das águas.
 


 

Um comentário:

  1. Incrível! Vou colocar este caso no meu repertório. Quando estiver contando causos para uma plateia mais adulta,

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