sexta-feira, 2 de outubro de 2015

 
MEMÓRIA
                                  Tamba
Era um 7 de julho do já distante ano de 1986. Eu morava na Vila Residencial de Muritiba. Quando cheguei em casa, soube por um vizinho da morte do artesão cachoeirano Cândido dos Santos Xavier, mais conhecido como Tamba. Ele era um homem simples e bom, (quando não estava bêbado). As  figuras de barro por ele modeladas e pintadas eu as conhecia desde menino. Eram elas que decoravam o presépio que se armava todos os natais na minha casa e nas outras, também. das mãos daquele verdadeiro gênio da modelagem nasciam os Reis Magos, Adão e Eva no Éden, indígenas fumando cachimbo, o estudante sentado num banco na praça, o pavão azul, o burrinho, o pombal, todos com aquele colorido vistoso que ele conseguia imprimir.
Quando eu era menino, o seu trabalho ainda não havia ultrapassado os limites da sua terra natal, suas figuras não eram comercializadas para a França e a Alemanha, não eram fotografadas pelas revistas e serviam de ilustração para cartões e calendários. Continuou na sua humildade sofrida, pobre de marré deci, por vezes sem ter o que comer, enquanto alimentava com o seu talento e labor o comercio explorador de suas peças. Rico na arte, pobre e explorado por muitos.
Beberrão contumaz,irreverente, perambulava pelas ruas da sua Cachoeira fazendo citações filosóficas tiradas não sei de onde. Jamais teve o afeto dos seus contemporâneos,talvez por isso mesmo ele começou a modelar Eixus desafiadores com a língua de fora, barco cheios de demônios chifrudos. Tamba não tinha medo dos homens e muito menos da morte. Acima de nós, homens comuns que nada vemos, ele acreditava na liberdade e a expressava através da sua arte.
Por ocasião da sua morte fizemos e publicamos uma ampla matéria. Hoje, volvidos 29 anos da sua morte, reverenciamos este artesão cachoeirano por certo esquecido por muitos dos seus contemporâneos.


 

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