sexta-feira, 6 de novembro de 2015



O dia 5 de novembro assinalou dois eventos dignos de registro: o aniversário do grande Rui Barbosa (1849/1923),e para os cachoeiranos em particular, a visita do Imperador D.Pedro II e sua esposa, dona Thereza Cristina Maria. Ocupemo-nos da seguinte efeméride ocorrida há 156 anos passados, portanto, em 1859. Antes de mais nada, vamos esclarecer uma questão que por incrível que seja me fizeram certa feita e eu respondi: o Monarca não vei inaugurar a ponte que leva o seu nome, porque a mesma foi inaugurada 26 anos depois, ou seja, no dia 7 de julho de 1885.
 Na ocasião da visita do Imperador, o cachoeirano Aristides Augusto Milton (1848/1904), autor das preciosas "Efemérides Cachoeiranas" era um menino de 11 anos de idade, foi, portanto, testemunha ocular. Em assim sendo, a sua narrativa é-nos por demais preciosa. Leiam-na:
 "Pelas seis e meia hora da tarde desembarcaram nesta cidade Suas Majestades Imperiais o Senhor D.Pedro II e sua Augusta consorte D.Thereza Christina Maria.
Os ilustres visitantes foram recebidos com as mais vivas demonstrações de regozijo e respeito.
Formou-se toda a Guarda Nacional do município, em grande parada. A Câmara Municipal incorporada e levando seu estandarte à frente, compareceu para entregar ao Imperador as chaves da cidade, cerimônia singular que se realizou num grande barracão preparado no Largo dos Arcos".
Comentamos: é uma pena não existir mais o estandarte da Câmara e nenhuma referência dele.  O Largo dos Arcos  é a atual Praça Teixeira de Freitas.
"Em seguida, foi cantado na Igreja Matriz um solene Te Deum a que assistiram tanto os Imperadores como todas as autoridades civis e militares. A Tribuna sagrada subiu o frei João do Carmo, que, depois, recebeu as honras de Pregador Imperial".
E o doutor Milton prossegue na sua narrativa:
 "O povo, curioso e satisfeito, tomou parte ativa e direta em todos os festejos, aclamando frequentemente a família imperial.
Foi suntuosa a ornamentação das ruas, que por três noites consecutivas estiveram iluminadas a giorno".
Aqui o doutor Milton usa a palavra italiana giorno. Vitor Hugo, em "Os Miseráveis" escreveu "uma iluminação a giorno é condimento indispensável a uma grande festa".
A expressão italiana illuminato giorno (dia). Então, uma iluminação igual ao dia, com exagero e tudo.
Voltemos à narrativa:
'O senhor D.Pedro, durante a sua permanência aqui, visitou as repartições públicas e muitos estabelecimentos particulares.  A Santa Casa de Misericórdia, onde esteve, no dia 8, Sua Majestade fez a esmola de 2:000$000"      (Dois mil reis)
 
Casarão onde ficou hospedada a Comitiva Imperial nos idos de 1859
  O Monarca brasileiro, além de culto era extremamente meticuloso, portanto, não deixaria de registrar as suas impressões de tão longa viagem. E ele o fez em forma de diário por ele equivocadamente intitulou de "Diário da Viagem ao Norte do Brasil", quando na verdade foi o Nordeste que ele visitou.

Por oportuno é bom lembrar que D.Pedro era amigo pessoal de muitos cachoeiranos, os irmãos engenheiros Antônio e André Rebouças, os Vieiras Tosta e os Barreto de Aragão. Vieira Tosta o acompanhou nessa viagem.
O Imperador e sua consorte saíram da então capital da Província por volta das 16h30m. da tarde do dia 5 de novembro de 1859, após a chuva dar uma trégua. Sua Majestade descreve as belezas naturais da viagem fluvial, avista várias propriedades, Maragojipe, Coqueiros, Najé, o Convento de São Francisco do Paraguaçu por ele considerado "um edifício considerável" e que se encontra hoje em completa ruína.
Vamos ao que escreveu o Imperador no seu Diário:
"Avista-se a Cachoeira. Pouco para baixo da cidade está, na mesma margem, a fazenda do Navarro, filho de Inhomirim, e ao lado oposto, mais para baixo, o Engenho Capivari de um dos Tostas"
Esclarecemos:   A Fazenda dos Navarros era na localidade doTororoInhomirim é o cidadão João Carlos Viana Navarro de Andrade, filho do médico Vicente Navarro de Andrade. Voltemos à narrativa de D.Pedro:
"Desembarcamos na cidade da Cachoeira, onde já não nos esperávamos por causa da baixa maré às seis e meia. Antes vieram a bordo o Juiz Municipal Cerqueira Pinto, que serve de Juiz de Direito, pois que o Figueiredo está em licença, o Juiz Municipal delegado Trasíbulo da Rocha Passos, e o Promotor Pascoal Pereira de Matos. Houve vivas e foguetes e fui para um camarim elegantemente arranjado,onde beijei o Santo Lenho, e agradeci as congratulações da Câmara Municipal, dirigidas pelo órgão do seu presidente Francisco Vieira Tosta, irmão de Muritiba".
Depois dessa viagem, o cachoeirano Francisco Vieira Tosta (1804/1872), foi agraciado com o título honorífico de Barão de Najé. 
"Houve  na matriz, que é um bom templo, com teto pintado e azulejos até meia altura quase das paredes, mas frequentado pelos morcegos, de que vi uns poucos no vão do trono (assim como em Nazaré) o sermão em que o pregador carmelita provocou bravos dos ouvintes e deu vivas".
Os morcegos chamara a atenção de D.Pedro. O carmelita pregador trata-se, conforme atestou Aristides Milton do frei João do Carmo.
D.Pedro teve uma boa impressão: "a cidade é quase toda calçada pelo modo antigo do Rio  de Janeiro , e sua rua principal é a continuação do cais, para o qual o orçamento da  atual da Província é de 5 contos. Com São Félix, arraial considerável da margem direita do rio, andará a população por 20 mil almas. Junto as informações dadas pelo Tosta. Segundo o Cerqueira Pinto o último juri foi justo, mas o Promotor reputa esse Tribunal passa-culpa e houve cinco apelações por parte da Justiça na última sessão".
Observaram como o Imperador era e procurava ser bem informado? Quanto à queixa do Promotor, a gente lembra que, nem tão longe assim, o professor e promotor Público dr.Azor Trindade reclamava que o tribunal do juri agia por sentimentalismo e muitos criminosos foram inocentados, atendendo pedidos de políticos!
Quanto ao padre da paróquia, D.Pedro observou o seguinte:
"O vigário consta-me que é capaz, mas pareceu que é ignorante e no Te Deum lei deseris"
No latim, deseris é DESERTOU. O padre em questão era Pedro de São João Batista, que foi substituído, depois, pelo padre Manoel Teixeira.
No dia seguinte D.Pedro subiu a ladeira do Capoeiruçu e ele observou que, "em tempo de chuva deve tornar-se muito má, havendo um passo bastante estreito."
O Imperador passou por Conceição da Feira e São Gonçalo dos Campos da Cachoeira, então partes integrantes do município da Cachoeira e hospedou-se em Feira de Santana quando ele anotou que o cemitério "é bom", a cadeia "péssima, tinha 9 presos e uma doida" a Casa da Câmara, "separada da cadeia é também de audiência e juri, é muito acanhada e o assoalho da sala das sessões da Câmara e do Juri está abatido".
Na estadia do Imperador em Feira, aconteceu um fato que poderia mudar o curso da História. É o próprio D.Pedro quem anotou:
 "...entrei na casa de uma pobre mulher que diziam conservar o filho doido furioso, numa cova e acorrentado para não separar-se dela. O doido logo que pressentiu gente, armado de um pau, ía dando-me com ele, e proferiu palavras indecentese obcenas. A corrente prendia-se à parede para o lado onde eu estava,, mas a mãe afirmou que nunca o pôs numa cova e não se achava agora acorrentado, estando paralítico das pernas. Tem 24 anos de loucura e já era bom carpinteiro quando ele principiou; verei se vai para o Hospício de Pedro II".
O Imperador retornou a Cachoeira. Visitou São Félix e depois partiu com destino a Maragojipe a quem ele chamou de "Terra das Palmeiras".       
 
  
 
 

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