sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

 
MEMÓRIA
A morte de Passarinho
Fiquei consternado quando soube da morte de Passarinho, semana passada. Segundo, Cacau, ele estava morando na Casa dos Velhos da Cachoeira.
Eu estava concluindo o primário na escola Montezuma quando conheci Passarinho, batizado Manoel Neri. Alias, na ocasião ele era apelidado de Manoel do Pato, em virtude de ter o seu pai dado o nome de "O Pato" a uma biboca de sua propriedade nos fundos do mercado municipal.
Certa tarde eu estava sentado no passeio da quadra (que não era murada, na ocasião),assistindo a um animado baba (para os meus amigos cariocas, "pelada"). De repente alguém tocou em meu ombro. Era a minha professora, Amanda Vitória de Moraes, na ocasião namorada do meu saudoso amigo Edí de Gegeu. E ela me perguntou: "Erivaldo, quem foi que escreveu isto aí no passeio?" Levantei-me e vi, e li o que não havia observado antes, uma frase chula chamando a professora de "gostosa"  Alguém entre os que estavam jogando dedurou: "Foi Manoel do Pato, professora!" Madá, a mãe de Passarinho baixou a porrada nele.
Passarinho tinha uma habilidade fora do comum para a prática do futebol. Chutava com as duas pernas, driblava muito bem e o que ele fazia descalço passou a fazer calçando chuteiras. No início, embora em times amadores, ele teve poucas chances, era tido como "irresponsável". Quem deu a primeira chance foi Acaça, técnico do 2 de Julho de São Félix que armou um time de respeito com Alvinho no gol, na zaga Nardo Doido, no meio de campo Mario Codorna e, no ataque, Passarinho e Dadinho.
Depois ele jogou no Cruzeiro, no Nacional e na Colônia Esportiva Cachoeirana.
Ele era policial militar, chegou a jogar no time profissional do Fluminense de Feira de Santana. Ele me contou que, certa feita, depois de um jogo no Joia da Princesa, um torcedor foi até o vestiário e disse pra ele o seguinte:
- Você é o maior jogador do mundo.
E ele, espantado:
- E Pelé?!
O fã então esclareceu:
- Do mundo do interior!
Naqueles idos de 1968, era ele e mais dez. Naquele jogo em que a Cachoeira conquistou o título intermunicipal pela primeira vez,, naquele domingo de 16 de maio, no campo da Graça, em Salvador contra o selecionado de Jequié, foi dele o gol marcado aos 28 minutos da segunda etapa 
Aquele gol de Passarinho, ficou imortalizado pela Charanga da Minerva, numa música que Xendengo trouxe do Rio e alguem fez a adaptação de uma letra:
"Este ano não vai ter colher de chá,
Pois Cachoeira está de amargar (bis)
Pega a bola,Coqueiro,
Passa para Tião,
Pra Passarinho fazer o gol da seleção
Este ano não... "
Sabe, galera, acabei de digitar esta crônica com lágrims nos olhos. Descansa em paz, Passarinho.



 

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