sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

MEMÓRIA
Casa dos Velhos da Cachoeira
"Idoso é quem vive uma longa vida...
A idade causa a degeneração das células...
Velho é quem perdeu a jovialidade
A velhice causa a degenerescência do espírito.
Você é idoso quando ainda sonha...
Você é idoso quando ainda aprende...
Você é idoso quando ainda ousa...
Você é velho quando apenas dorme.
Você é velho quando já nem mais ensina.
Você é velho quando sequer tenta.
Para o idoso, a vida se renova a cada dia que começa...
Para o velho, a vida se acaba um pouco mais a cada noite que termina.
Para o idoso, o dia de hoje é o primeiro do resto da sua vida...
Para o velho, todos os dias parecem o último da longa jornada"
                                                      (Ser Idoso ou ser velho - J.R.Nascimento)
 Os que apreciam pesquisar os tempos volvidos da Cachoeira, já devem ter percebido o quanto se preocupavam os nossos avoengos com a juventude, inclusive o hino oficial da cidade se alude à "mocidade vibrante e altaneira..." e mais adiante, "façamos grande o nosso porvir!"  Eu acredito que era por culpa de morrerem-se muito cedo, um homem de 45 anos era considerado "velho".
Vejamos então: o ferroviário Antônio da Trindade Melo fundou o Asilo Filhas de Ana (vide foto de O TúNEL DO TEMPO) em 1891.
Em 1950, o então deputado federal João Mendes da Costa Filho construiu o Hospital de Crianças Ana Neri nomeando a professora Maria José da Costa Magalhães. Depois da morte do deputado, o hospital não conseguiu se sustentar, até que, no final do ano de 1980, uma religiosa Sacramentina chamada irmã Antônia ali ijnstalou uma creche cujo projeto foi tocado pelo vigário da Cachoeira, padre Hélio Leal Vilasboas até que se deu a sua transferência para a paróquia de Santo Amaro. Ao retornar para Cachoeira, o padre Hélio se viu impedido de continuar no projeto, o local praticamente é um território ocupado pela vagabundagem do tráfico de drogas.
Na Cachoeira, a primeira pessoa a voltar a sua atenção para os idosos foi a senhora Gésia Miralva Santana de Araújo, carinhosamente chamada de dona Zuzu.  
Segundo o escritor e apreciado memorialista Francisco José de Mello, apiedando-se de uma anciã de nome Maria Antônia, dona Zuzu pediu ao velho comerciante Domiciano Bispo Dias, (estava radicado em Candeias, no ramo de materiais de construção) uma pequena casa de sua propriedade na Rua Riacho Pagão (Pacheco de Miranda Filho).
Tempos depois, para sermos mais exatos, no ano de 1965, dona Zuzu teve de arrumar uma casa maior, surgiram novos necessitados. Providenciou, então, uma casa maior na Rua Cunegundes Barreto.
Da esquerda para a direita, dona Gésia e seu esposo,Osmundo Araújo, o prédio onde funciona a "Casa dos Velhos da Cachoeira",e,finalmente, João Rabelo, bancário e diretor da Leitalves, que conseguiu a primeira verba do Banco do Brasil para a benemérita instituição cachoeirana.  
 BREVE HISTÓRICO DO IMÓVEL
O proprietário do imóvel foi o senhor José Rui Dias de Afonseca, pessoa de destaque na sociedade cachoeirana do passado, inclusive fazia parte da câmara de vereadores.Em 25 de novembro de 1891, em face da sua morte e, logo após da sua esposa, dona Josefina Dias de Afonseca, julgada a partilha, ficou como herdeiro o senhor Laurentino /dias de Afonseca.
Vamos encontrar em 14 de janeiro de 1967, o Centro Espírita Obreiros do Bem recebendo o imóvel por doação  post-mortem de dona Gendelina Dias de Afonseca. Finalmente, no dia 25 de março de 1968, o Centro Espírita fez a doação para a Casa dos Velhos que, segundo Chiquinho Mello, foi efetivamente fundado em o dia 27 de setembro de 1966.
O ano de 1861 que aparece na portada da casa, provavelmente se alude a alguma reforma e não da inauguração do prédio.
OS PRIMÓRDIOS
 Ainda segundo Chiquinho Mello, devido às dificuldades de aparelhar, suprir e manter funcionando a Instituição, "atendendo ao seu apelo, jovens cachoeiranos possuidores de dotes musicais organizaram um grupo e se integraram à campanha de Gésia, realizando matinês e vesperais no Cine Teatro Cachoeirano, cuja meta era a compra do imóvel para abrigar maior número de anciãs".
Cabe-nos fazer algumas observações sem desmerecer o trabalho do querido e saudoso amigo, na ocasião residindo fora da cidade. Não temos ideia de onde tirou tais informações. Vejamos:
Não foram matinês nem vesperais, foram matinais.
O local das referidas matinais foi no Cine Glória pois o esposo de dona Zuzu, Osmundo Araújo, era bancário e gerente do cinema.
O imóvel foi uma doação do Centro Espírita Obreiros do Bem em 14 de janeiro de 1967. Dona Zuzu e seu esposo, Osmundo era membros do referido Centro Espírita Kardecista. Pouco tempo depois,em uma das salas da referida casa, eram realizadas sessões mediúnicas e doutrinárias.
Hoje, a Instituição é uma empresa com CNPJ e tudo.
OS MATINAIS
Não sei dizer de quem foi a ideia e quando começou. Sei que o animador era o professor do ginásio Carlito Pinto Brito que esteve à frente durante uns três programas mas, ele foi transferido funcionalmente para outra cidade.
Nas comemorações do primeiro aniversário da Empresa de Transportes Odália, na apresentação de OS TINCOÃS, no Cine Popular Muritibano (atual Supermercado Fagundes), Carlito Brito ( de roupa branca à direita) foi o mestre de cerimônia. 
   Na ocasião eu era bancário,colega de Osmundo, então, dona Zuzu praticamente me fez uma "intimação", lembrando, inclusive, que eu tinha experiência com programas de auditório pois, juntamente com Gilberto Braga e Alemão, mantinha um programa no extinto auditório do serviço de alto falantes da Desportiva do Paraguaçu. Passei, então, a ser o animador dos saudosos matinais.
Da esquerda para a direita, o autor desta memória e animador dos matinais, Erivaldo Brito; Diógenes Monteiro Guimarães (Didi da Bahiana) e Antônio Porto, que é muito calmo,muito discreto e o calouro Bacelar (Jesus).
Conforme dissemos, quem 
acompanhava os "artistas" era,Didi da Bahiana e Antônio Porto, este último mais efetivo, sempre discreto e muito menos agitado do que Didi que por vezes não facilitava quem ia cantar executando acordes dissonantes e solos de guitarra.
Se fosse rememorar aqueles momentos iria demandar de muito tempo e espaço, iria cansar o leitor. Assinalo a presença em um dos matinais de um quarteto formado por Ceguinho, Caçulinha, Mateus e Erione (meu irmão). O grupo era chamado de "Pequenos Cantores Cachoeiranos". Apresentaram-se umas três vezes. Foi, também, marcante a presença do então menino chamado Guiba, hoje respeitado compositor e violonista domiciliado em Portugal.
Tinha um rapaz apelidado de Tamba. Ele era sanfelixta. Aleijado, (tinha uma das pernas atrofiadas)  andava de muletas. Possuía uma voz possante e argêntea semelhante a Agnaldo Timóteo. Era uma presença que fazia delirar o público.
Ah! já ia esquecendo: Be-be-tinho !   Era uma figura obrigatória, uma atração para o fim do matinal. Bebetinho levava a plateia ao delírio com aquela voz e trejeitos gays.
Outro matinal que lembrei, agora, foi o que envolveu Bacelar, o conhecido "Jesus". Quando o chamei e ele se aproximou de mim fiz a pergunta óbvia:
- Meu amigo, Jesus, você escolheu o que para cantar?
E ele respondeu, animado;
- O nono mandamento.
Antônio Porto fez u8ma introdução e ele entrou direitinho no ritmo e no tom, mas...    Errou a letra. O público começou a rir, alguns vaiaram. Eu peguei o microfone:
- "Jesus" você estava indo muito bem, ficou nervoso? Vamos começar de novo, certo?
Não deu certo. No mesmo local da letra ele deu um branco, não dava de jeito nenhum. Quando ele foi se retirando eu não perdi a piada pronta. Peguei o microfone e disparei:
- Tem coias que só acontecem aqui na Cachoeira. Já pensaram? "Jesus" esqueceu o Nono Mandamento !!!
Até o discreto Porto acabou sorrindo.
Não sei precisar, hoje, quantos foram os matinais. Sei que fiz parte da primeira Diretoria que era assim composta:
Presidente: Gésia Miralva Santana de Araújo
Vice dito: Julieta Cerqueira da Silva.
1ª Secretária:  Aldemira Magalhães Silva
2° Secretário  Felisberto Gomes
1º Tesoureiro Edson Rubem Ivo de Santana
2º Dito: Gilberto José dos Santos
1º Procurador: Isaac Tito dos Santos
2º dito: Carlos Bispo de Cerqueira
Conselho Fiscal: Artur Nunes Marques, Luiz Gonzaga Dias, Félix Manoel de Brito, Divaldo Sales Soares e Erivaldo de Souza Brito 
Dona Gésia, apesar de sua debilidade e da doença de seu esposa, em face das dificuldades em manter a Instituição funcionando, conseguia alguns donativos importantes como o do Banco do Brasil através do funcionário João Rabelo, que ra também, gerente da Leitalves.
Em 1979, dona Zuzu conseguiu o apôio do empresário Mamede Paes Mendonça que aprovou a idéia de colher donativos nos supermercados de Salvador (lojas da Barra e de Brotas), além de ele próprio fornecer açucar e arroz.
A gerente da Casa dos Velhos é Lúcia de Souza Batista, antiga funcionária do Cartório cuja titular era a própria dona Zuzu. Trabalham no projeto 18 pessoas. Os internos são em número de vinte e três sendo apenas quatro homens. Um deles (segundo minha filha,Rosinha, que sempre faz uma visita a fim de alegrar os internos com voz e violão). um dos internos é Bidó quando menino apelidado de "Bredo", companheiro dos babas no adro da igreja do Monte. Bidó era criado na família Gavazza.
Leio na Internet que a instituição, embora uma empresa com CNPJ e tudo não tem fins lucrativos, portanto aceita doações. É só ligar para a gerente, Lucinha, através do telefone (075) 3425-2251.
   
 

Um comentário:

  1. Brito me remeto ao passado quando leio o Jornal de Ontem, Hoje e Sempre. Apesar de ter saído de Cachoeira ainda criança (11 anos) muitas lembranças são inesquecíveis. Obrigado pelas belas matérias.

    ResponderExcluir