sexta-feira, 1 de abril de 2016



O palhaço de perna de pau passava na Rua da Feira anunciando o espetáculo circense. Na minha análise infantil, parecia que ele, se quisesse, entraria no sobrado pela janela onde eu estava.
Com andar cambaleante para não perder o equilíbrio, lá ia ele acompanhado de muitos meninos iguais a mim e que a minha madrinha classificava de "capitães de areia". O palhaço de perna de pau cantava e a garotada respondia:
- O raio do sol suspende a lua!
- Olha o palhaço no meio da rua...(bis)
- Hoje tem goiabada?
- Tem, sim,senhor !
- Hoje tem marmelada?
- Tem, sim, senhor !
- Hoje tem espetáculo?
- Tem, sim, senhor!
- Vai ser que hora?
- Sete horas da noite !
- Arrocha, negada!
- Êêêêêê !
- Mais uma vez...
- Êêêêêê !
- O palhaço o que é? 
- Ladrão de mulher ! 
Tantas foram as Companhias circenses que se apresentaram na Cachoeira que se perderam na minha memória, menos o Havana, quando aconteceu a tragédia do tigre matar o domador, que eu nem nascido estava, apenas de tanto ouvir contar e o Circo Nerino.
O Nerino, na realidade era um circo-teatro o que cativava os corações de cachoeiranos, sanfelixtas e muritibanos que desciam de Muritiba na Marinetes de Artur Brandão e César Surdo.
Roger, o filho de seu Nerino, fundador do circo, também herdou do pai a figura ímpar do palhaço Picolino que arrancava gargalhadas do público, sobretudo das arquibancadas de madeira chamadas de "poleiro".
Picolino criou alguns motes como "cachorrro!" e como era estressado, quando o seu parceiro dizia que iria contar algum segredo pra ele, ele desesperava:
- Diga, logo ! Diga logo ! Diga looooogo !
Roger era um artista completo> Era músico, equilibrista, ator principal das peças tais como, "Sansão e Dalila", "Deus uniu dois corações", A canção de Bernadete", "O Ébrio", A Paixão de Cristo", "A vida de Santo Antônio" e tantas outras.
A filha dele, Alicinha, fazia os meninos suspirarem quando aparecia com uma sainha curta e andando no arame.
Além da esposa de Roger, dona Anita, tinha um coroa muito forte que fazia a base da "Pirâmide Humana". O apelido dele era Pato Rouco devido ao seu timbre de voz.
Quando o Circo Nerino esteva na Cachoeira, no ano de 1960, os cantores Levi Branco e Bob Lúcio apareciam sempre no Expresso Cachoeirano onde Dadinho trabalhava. Lá se reuniam os boêmios e seresteiros cachoeiranos.
Naquele ano, no dia 22 de agosto, quando as lonas já estavam arriadas, aconteceu um trágico acidente; o mastro central desabou e esmagou a cabeça do eletricista Ivan Alves Moreira que teve morte instantânea.
O Circo Nerino era uma família; seu Nerino, sua esposa dona Armandine (ambos ficavam na porta de entrada do circo), Roger (vide foto atual) e sua esposa, "Pato Rouco", e, talvez por isso mesmo, eram considerados como "da casa" pelos cachoeiranos da minha época.
 

 

 

 

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