sábado, 4 de junho de 2016

MEMORIA
Coroação da Nossa Senhora

Um comercial da Loja Neia, de Walter Costa Maia, que a gente sabia de cor e salteado de tanto anunciar diariamente no serviço de alto-falantes “Vozes da Primavera” de Elias Paco-Paco, dizia o seguinte:
“Maio, mês das flores, mês das noivas, mês de Maria!”
Eu gostava muito de cantar as Ladainhas, Tantum Ergos, Salutáris ,e, sobretudo as músicas compostas para homenagear Aquela  que mereceu a graça de ser a Mãe do Senhor.
Os mais renomados compositores do mundo compuseram em honra à Maria, a "Excelsa Criatura". Na Cachoeira foi assim também; maestro Camellier, Tranquilino Bastos, Chico Fróes, Sapucaia Sobrinho e tantos outros que permaneceram no anonimato compuseram, versificaram para Maria.
A harmonista e regente do Coral da Matriz, dona Stela, dizia que, o mês de maio "era uma oportunidade ímpar de reunirem-se os cantores e cantoras para ensaiar para as festas da Padroeira, Nossa Senhora do Rosário".
Quem se encarregava de fazer o momento da coroação era o sacristão Antônio de Jú que também fazia parte do coral. Devo confessar que jamais tive o privilégio de conhecer a  voz de Antônio de Jú, cantando.
Sem muita criatividade, a coroação era o mais do mesmo, não havia nenhuma novidade, a cada ano se repetia.  Procurei o padre Fernando Carneiro, meu amigo e compadre e me comprometi de, naquele ano que longe vai, fazer uma coroação, digamos assim, diferente.                                                                                      
 Contando com a colaboração do amigo e compadre Valdir de Gegeu fizemos a imagem por cima de um globo terrestre que girava, a da imagem instalada numa pequena prancha com rolimãs ,saindo por trás de cortinas e deslizando para o centro do altar. e outras tantas que no momento seria enfadonho relembrar. Uma delas, provavelmente a que causou maior impacto, foi a de trazer do Coro um anjo até o altar mór, através de uma "trilha" de um fio de náilon que ficaria invisível, sobretudo à noite.
Na manhã do dia 31 bem cedinho, eu e Valdir entramos pela porta do lado do templo, a que dá acesso à Sacristia. Munido de todos os materiais,explicava a ele como iria funcionar o projeto:
- Pingareu (os amigos mais velhos de Valdir o chamavam de "Pinga", acredito que por sobejas razões), vamos trazer este fio de náilon lá do coro até aqui no altar-mór, exatamente aos pés de Nossa Senhora. As crianças ficarão espalhadas pelo altar.
O anjo trará nas mãos a coroa segura,por um fio de náilon de menor espessura. A menina que for coroar, levará escondida uma pequena tesoura. Eu vou ficar no coro controlando a velocidade do anjo...
E ele:
- Eu vô-vo-vou fazer que po-po-porra,compadre?
- Você ficará no retábulo...
- Ré o quê?
- Retábulo,atrás do altar, apagará a luz da nave e acompanhará com este farol a decida lenta do anjo,entendeu?
- Com-com-compadre...vai ficar po-po-porreta !
Foi então que eu resolvi sacanear o meu saudoso amigo, no exato momento em que entrava uma operosa "Irmandade do Coração de Jesus". Num dos bancos da frente,mãos postas,de joelho começou a rezar. No momento exato em que eu resolvi sacanear Valdir que estava naturalmente de costas e não percebeu a entrada da piedosa senhora. Provoquei:
- A minha preocupação, compadre são os comentários amanhã, que não gostaram, fazem críticas...
Ih, galera, pra quê? Valdir começou a falar em voz alta todo o seu vasto manancial pornográfico tão familiar aos que tocavam na banda marcial do Ginásio:
- Eu man-man-mando todas be-be-beatas pra porra, tomar no...
Comecei a dar sinais desesperados  e ele não entendia:
- E-e-eu não tenho ca-ca-capas encoradas...
 Desesperado apontei com o dedo da presença da irma. Ele, então,virou-se,e,na maior cara de pau a cumprimentou:
Co-co-como é que vai dona fulana, tu-tu-tudo bem com-com-com a senhora? Es-es-estamos ca-ca-caprichando pa-pa-para  -como é que se diz ? - fa-fa-fazer uma be=be=bela homenagem a No-no-nossa Senhora, vo-vo-vocês vão gos-gos-gostar !
                                                          


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